Em busca de desafios

por João Luiz Sampaio 01/07/2018

Com carreira em ascensão, mezzo soprano Ana Lucia Benedetti interpreta canções de Mahler no Theatro São Pedro

O nome do disquinho infantil ela já não lembra – menos ainda por que motivo uma das faixas era uma versão da ária “Sempre libera”, de La traviata –, mas a memória de sua mãe não falha e gosta de contar que, com 3 anos, a menina já cantarolava as melodias de Verdi. “Eu não tenho lembrança disso, mas, como em casa ouvia-se acima de tudo música popular, aquele LP provavelmente foi minha única referência do mundo da ópera durante um bom tempo”, conta Ana Lucia Benedetti, que se transformaria em uma das mais interessantes vozes líricas de sua geração – e que, neste mês, sobe ao palco do Theatro São Pedro para interpretar o ciclo de canções Rückert-Lieder, de Mahler, sob regência de Ligia Amadio.

Ana Lucia Benedetti [Divulgação]
Ana Lucia Benedetti [Divulgação]

“É a primeira vez que vou cantá-las, e o que me chamou a atenção logo de cara foi a diferença entre elas e as sinfonias de Mahler. Há algo de muito intimista na escrita, o cantor está em constante diálogo com a orquestra”, ela explica. “Não se trata apenas de compreender o texto e encontrar seus significados, mas de fazer isso atenta ao que os demais instrumentos estão fazendo, à orquestração. É um desafio fascinante.”

O ciclo é símbolo da personalidade mahleriana, ela acredita, da relação intensa que o compositor mantinha com o mundo à volta e, ao mesmo tempo, sua sensação de desencanto e distanciamento. “Cada canção traz um tema diferente, é verdade, mas em conjunto elas sugerem uma atmosfera que é representativa do que Mahler pensava. A complexidade de sua personalidade pessoal e musical fica evidente não apenas no tema, mas também no tratamento harmônico de uma canção como Ich bin der Welt abhanden gekommen (Eu estou perdido para o mundo), por exemplo.” Uma canção que talvez seja a mais célebre do autor, gravada por dezenas de intérpretes. “Uma artista como Janet Baker impressiona pela musicalidade, pela intensidade da palavra, assim como não dá para passar sem os registros de Christa Ludwig.”

Apesar do cantarolar da infância, o canto chegou relativamente tarde à vida de Ana Lucia. Aos 7 anos, ela iniciou seus estudos ao piano, mas nunca pensou em carreira na música. “Bem mais tarde, em um grupo na escola, me pediram que cantasse. Aceitei. E uma professora me disse que eu tinha voz boa. Foi só aí que comecei a estudar – e foi com a descoberta do canto que surgiu a percepção de que eu de fato gostaria de fazer música.”

Ela, que hoje é orientada por Isabel Maresca e Gabriel Rhein-Schirato, entrou para a Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), onde estudou com Marcos Thadeu, e formou-se na Faculdade Mozarteum. Em 2009, venceu o Concurso Maria Callas e, nos anos seguintes, foi finalista e conquistou prêmios em outras competições, como o Concurso Carlos Gomes, o Concurso da Canção Brasileira e o Concurso Bidu Sayão. Em 2013, fez seu primeiro grande papel de protagonista: Ulrica, no Baile de máscaras, de Verdi, no Palácio das Artes de Belo Horizonte.

“Foi uma experiência fascinante e complicada”, ela lembra. “Um papel como Ulrica exige certa maturidade que eu ainda não tinha, mas que precisei buscar, tanto do ponto de vista cênico quanto do técnico.” Com a chegada de John Neschling ao Theatro Municipal de São Paulo, cantou em óperas como Otello, Eugene Oneguin e Il trovatore. No ano passado, atuou, no mesmo palco, em A danação de Fausto, de Berlioz; em abril, foi destaque da produção do Theatro São Pedro de O matrimônio secreto, de Cimarosa.

A ópera ocupa boa parte de seu tempo, o que faz do concerto deste mês um momento especial. “Foi com as canções que, para mim, tudo começou. Estudando canto, o que me atraía era justamente o intimismo desse repertório e o modo como, na interpretação, você mexe com questões suas, acima de tudo. É claro que você também está presente quando canta ópera, mas ali se trata de viver um personagem. Nas canções, não. É você que está ali, e isso lhe dá uma sensação de outro tipo de liberdade.”

Isso não a impede de se colocar metas de repertório também na ópera. Duas delas: Eboli, em Don Carlo, e Azucena, em Il trovatore, ambas de Verdi. Pergunto se Wagner não passa por sua cabeça. Silêncio. Insisto. Ela dá uma leve risada. “Eu tenho medo dele”, diz, para depois revelar que a ideia já lhe ocorreu. “No fundo, acho que também tinha medo de Mahler, mas, estudando sua música, ela se revelou para mim. Não que não haja desafios, pelo contrário. Eu não me considero uma cantora pronta, acho que estou sempre em busca de algo. E essas canções me revelam mundos novos.” Não foi exatamente um “não”.


AGENDA
Orquestra do Theatro São Pedro
Ligia Amadio
– regente
Ana Lucia Benedetti – mezzo soprano
Dias 13 e 14 de julho, Theatro São Pedro (São Paulo)