Retrospectiva 2016 – João Luiz Sampaio (depoimento de dezembro de 2016)

por Redação CONCERTO 03/02/2017

“É bem provável que a palavra que mais se repetirá ao longo desses depoimentos seja “crise”. Faz sentido, ela existe. Mas não é apenas econômica ou política. É bom que fique claro: não há desculpa para os cortes, em especial do governo do Estado de São Paulo, cujas porcentagens, além de irresponsáveis, ultrapassam em muito a queda na arrecadação estadual. Mas o meio musical também tem sua responsabilidade. Da mesma forma que nossos gestores foram responsáveis pelo crescimento dos projetos nos últimos anos, deveriam agora ser claros e honestos com relação aos cortes e ao impacto real que eles trazem para iniciativas importantes. Não tem sido o caso. No discurso oficial, permanecem termos como ‘confiança’ e ‘tranquilidade’. Já perguntei isso uma vez e repito: isso interessa a quem? O silêncio conivente não tem sido uma estratégia de sucesso. E, à frente de bens públicos, gestores e seus conselhos devem à sociedade satisfações, deixando o jogo político para segundo plano. Como esperar que a sociedade crie um debate sobre a importância da música clássica e da ópera no mundo contemporâneo se as instituições e seus diretores permanecem acovardados, em descompasso com a realidade? Nos últimos vinte anos, projetos em todo o Brasil deram à nossa área um protagonismo sem precedentes. Voltar à postura de eternas vítimas é um retrocesso sem efeito prático. Mas, enfim, para não dizer que não falei de música, três momentos: entre as orquestras, a Filarmônica de Viena com Valery Gergiev; na música de câmara, o recital de Jonas Kaufmann; e, na ópera, a Elektra, de Strauss, no Theatro Municipal de São Paulo. Belos alentos.”

João Luiz Sampaio, jornalista e crítico, editor-executivo da Revista CONCERTO e colaborador de O Estado de S. Paulo