Aventura musical pela cidade de São Paulo

por Camila Frésca 06/08/2012

Na semana passada, conferi no mesmo dia dois concertos incríveis, oportunidade que só uma grande metrópole – a despeito de todas as suas mazelas – pode nos proporcionar. Apenas no dia da apresentação é que consegui garantir meus ingressos para o concorrido recital do pianista Marc-André Hamelin na Sala São Paulo. Ainda comemorando o feito, fui convidada para assistir ao show extra do contrabaixista de jazz Ron Carter, que aconteceria no mesmo dia, no Auditório Ibirapuera. O primeiro impulso foi recusar, mas logo pensei, “por que não?” Afinal, Hamelin começava a tocar às 21h, e na primeira parte do concerto é que estavam as peças mais interessantes, na minha opinião; assim, saindo durante o intervalo, eu chegaria ao Ibirapuera a tempo de conferir a segunda sessão de Ron Carter e banda, às 23h.

 


Ron Carter e Marc-André Hamelin [fotos: divulgação]

 

E assim foi feito. O canadense Marc-André Hamelin é um pianista excepcionalmente dotado – de técnica e inteligência musical – e que construiu sua reputação fugindo do repertório standart do piano. Eu o conheci anos atrás através de um disco dedicado a Villa-Lobos e no qual ele tocava peças como As três Marias de uma maneira impressionante e que desde então ficou em minha cabeça. Recentemente, um disco só de composições próprias também me deixou boquiaberta. O repertório anunciado de seu concerto só confirmava sua mente criativa: com exceção de Rachmaninov, nada de nomes manjados de recitais de piano.

Hamelin, que tocou o programa todo de cor, iniciou o recital com a bela Sonata nº 1 de Alban Berg, ainda ecoando a linguagem romântica. A sequência teve duas peças de Gabriel Fauré, interpretadas com a sutileza e destreza necessárias, e nas quais os dedos do pianista pareciam ser de uma leveza sobre-humana. Mas os dois autores foram uma espécie de aquecimento para o que viria a seguir: uma interpretação arrebatadora do Rudepoema, de Villa-Lobos. Sua interpretação é de tal forma surpreendente que faz parecer que ninguém, até então, havia entendido o real sentido da peça. É difícil não ficar enumerando superlativos para tentar transmitir o que houve ali, e os colegas Leonardo Martinelli e João Marcos Coelho publicaram críticas ótimas nas quais esmiúçam esta noite memorável.

O fato é que, ainda sob o impacto do Rudepoema e lamentando não ver a conclusão daquela viagem musical, saí apressada da Sala São Paulo rumo ao Auditório Ibirapuera. Um público mais jovem e “descolado” deixava a primeira sessão desse lendário contrabaixista de jazz, que aos 75 anos mostrou energia suficiente para emendar um show no outro, tocando por mais de três horas praticamente ininterruptas. Acomodei-me para a segunda sessão e começou então uma nova “viagem”. Com a clássica formação jazzística de piano, baixo e bateria – na verdade, acompanhado pela pianista Irene Rosnes, o baterista Payton Crossley e o percussionista Rolando Morales –, Ron Carter nos levou a uma longa viagem na qual foi intercalando temas, canções e improvisos. De tempos em tempos, um dos músicos solava mostrando sua excelência. Tocaram sem pausa entre uma música e outra durante aproximadamente uma hora, na qual o público pode desfrutar a riqueza timbrística de Ron Carter e sua elegância extrema, que o faz ultrapassar a ideia do solista que quer demonstrar sua virtuosidade a todo momento. Não que ela não estivesse lá, implícita, seja quando ele e a banda nos desafiavam com ritmos complexos, seja quando seu contrabaixo simplesmente fazia a “cama” das canções, ou ainda em seus solos discretos. Mais uma sessão e, em aproximadamente uma hora e meia de show, pode-se apreciar um jazz clássico de alto refinamento e sofisticação.

Saí de lá feliz por não ter abortado essa segunda sessão na última hora, na tentação de ver Hamelin até o fim. Afinal, se toda escolha envolve uma perda, acho que saí no lucro ao poder conferir a maestria desses dois artistas que, embora formalmente em áreas distintas, estão muito próximos no que concerne ao domínio técnico, criatividade, inteligência musical e no resultado artístico – que vale qualquer correria.

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