Carmelitas na Amazônia

por Nelson Rubens Kunze 06/05/2011

Um dos diferenciais do Festival Amazonas de Ópera – que neste ano festeja a sua 15ª (!) edição – é a sua programação criteriosa. Ao longo dos anos, o diretor artístico Luiz Fernando Malheiro soube selecionar títulos que agregassem ao mérito óbvio da realização de um festival de ópera em plena selva amazônica – e em um teatro que por si só já e uma joia de nosso patrimônio de construções históricas – uma importância adicional, que é a de oferecer obras pouco comuns (pelo menos nessa parte do mundo). E obras exigentes.

 

É o caso da rara Diálogo das carmelitas, ópera de Francis Poulenc, que estreou nesta nova edição do Festival Amazonas de Ópera. Diálogo das carmelitas foi composta em 1953, como encomenda do Teatro alla Scala de Milão, baseada em texto do escritor francês Georges Bernanos. Bernanos, um católico devoto que viveu refugiado no Brasil durante a segunda guerra mundial, redigiu o libreto em 1947, já doente de um câncer que o mataria um ano depois. Como relata o professor Jorge Coli nas notas de programa, Bernanos baseou-se no romance A última ao cadafalso, escrito em 1931 por Gertrude von Le Fort, que conta a história verídica de freiras de um convento que foram guilhotinadas por se recusarem a abandonar a vida religiosa, à época da revolução francesa. O libreto do Diálogo é denso na discussão da transcendência, da fé e do medo da morte.

Foi muito feliz a encenação do diretor Willian Pereira. Cenas despojadas, bonitas e criativas emolduraram com muita propriedade os dilemas que cercam a personagem principal Blanche de la Force em sua decisão de inicialmente entregar sua vida a Deus e depois acompanhar suas irmãs de fé no patíbulo rumo à guilhotina. Com o apoio de uma iluminação bem concebida e realizada com eficiência por Fábio Retti, Willian logrou desenvolver uma dramaticidade crescente ao longo do espetáculo, que culminou com o martírio coletivo. Evidente que isso de nada serviria se não houvesse, no palco, artistas à altura – e o elenco não decepcionou. Todos os personagens foram muito bem trabalhados, cada qual realçando suas potencialidades. Destaque para a excelente soprano francesa Michelle Canniccioni como Blanche (papel que fez em 2004 no Scala de Milão convidada e dirigida por Riccardo Muti) e para a mezzo soprano brasileira Denise de Freitas, que inundou o Teatro Amazonas com seu belo timbre no papel de Madame Maria da Encarnação.

Foi muito bem também a orquestra Amazonas Filarmônica e o Coral Amazonas, sob direção do maestro Marcelo de Jesus. Esse Diálogo das carmelitas não é a primeira importante realização desse competente regente; Jesus, que também é diretor artístico adjunto do Festival Amazonas de Ópera e regente titular da Orquestra de Câmara do Amazonas, tem apresentado ótimos trabalhos, entre eles uma elogiada direção de Yerma de Villa-Lobos no Festival do ano passado.

O Diálogo das carmelitas foi precedida, no dia anterior, pela ópera Suor Angelica (Irmã Angelica) pertencente ao conhecido Tríptico de Giacomo Puccini (junto com Il Tabarro e Gianni Schicchi). A ópera teve regência do jovem maestro argentino Federico Victor Sardella e direção cênica da brasileira Maria Lucia Gurgel. Apesar de uma boa atuação da protagonista Isabelle Sabrié – soprano francesa radicada há alguns anos em Manaus –, o espetáculo deve ser visto como uma produção de formação artística, já que foi majoritariamente realizado por alunos e professores dos grupos locais.

Se o resultado artístico de Suor Angelica não é comparável ao do Diálogo das carmelitas, a encenação da ópera demonstra o sucesso da iniciativa da Secretaria de Cultura do Amazonas em investir a longo prazo (há pelo menos 15 anos!) no ensino e difusão culturais. Que outro teatro no Brasil pode se orgulhar de montar uma ópera com talentos egressos em grande parte de suas próprias escolas e conjuntos? Que outro teatro no Brasil pode se orgulhar de manter corpos estáveis como a Amazonas Filarmônica, o Coral do Amazonas, a Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica, uma orquestra de câmara, Grupo de Dança e Balé Folclórico do Amazonas e mais o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro? E mais importante, com programação e atividades regulares durante todo o ano? Bem poucos...

Nelson Rubens Kunze viajou a Manaus a convite da organização do Festival Amazonas de Ópera.