Com orquestra alemã em campo, não tem placar em branco

Aquilo que a Espanha é hoje para os times de futebol, a Alemanha é para as orquestras: um centro mundial de excelência. Por mais globalizada que a música clássica tenha se tornado, o país de Bach, Beethoven, Brahms e Wagner ainda tem muito a nos ensinar nessa área, como demonstram os melhores concertos internacionais que tivemos nesse início de temporada.

 

Primeiro, em 7 de maio, foi a reveladora Missa em Si, de Bach, que Helmuth Rilling levou ao Teatro Municipal, com sua Bachkademie Stuttgart, Gächinger Kantorei e um refinado time de solistas formado por Andreas Weller (tenor), Roxana Constantinescu (mezzo-soprano), Tobias Berndt (barítono) e Julia Sophie Wagner (soprano).

Eles não usam instrumentos de época, mas tampouco ficaram parados no Bach ultra-romântico dos anos 1950. Tanto da parte da orquestra quanto do coro, o que se viu foi uma leitura equilibradíssima e leve, articulada e transparente, com uso bastante parcimonioso do vibrato e profundo senso de estilo.


Deutsches Symphonie Orchester de Berlim e Lionel Messi [fotos: divulgação]

Uma semana depois, em outra segunda-feira, dia 14, no mesmo Teatro Municipal, foi a vez da Deutsches Symphonie Orchester de Berlim abrir, em grande estilo, a temporada do Mozarteum Brasileiro, sob a batuta de um Vladimir Ashkenazy de inegável carisma que parecia, contudo, passar a maior parte do tempo com a cara enfiada na partitura-GPS, pouco contemplando os instrumentistas supostamente sob seu comando.

O fato é que uma orquestra dessas dá a impressão de conseguir tocar com, contra ou apesar de qualquer regente que esteja no pódio. De elevadíssimo nível técnico, cada naipe é equilibrado não apenas dentro de si, como ainda se funde harmoniosamente com os outros. E a gente fica na dúvida se admira mais a finesse suprema das madeiras, o caráter imponente dos metais, o veludo inefável das cordas... Não, não há nada de remotamente parecido com isso aqui em nossas latitudes tropicais, seja como afinação, seja como sonoridade, seja como cuidado com o fraseado.

O programa começou com a Sinfonia nº 6, de Beethoven, a célebre “Pastoral”, que conquistou pelas inúmeras nuanças de dinâmica, pela sutileza dos pianíssimos e, sobretudo, pela transparência: só uma orquestra muito segura de si poderia se permitir um desnudamento tamanho diante do público.

Depois do intervalo, veio Chostakóvitch e, com ele, os extremos: o segundo movimento da Sinfonia nº 10, um scherzo selvagem, foi um dos maiores momentos de virtuosismo coletivo que já tive o prazer de presenciar ao vivo.

Essa é uma das partituras do compositor russo que mais evidenciam a influência de Mahler, não apenas no gigantismo da orquestração ou nas auto-citações de caráter autobiográfico, mas, sobretudo, nas abruptas mudanças anímicas.

Assim como em Mahler, o estado de espírito pode mudar abruptamente, de um compasso para o outro. E o que fascina em uma orquestra como a DSO é que a essa sucessão de climas da obra corresponde uma imediata sucessão de cores na orquestra; seus músicos parecem dispor de uma gama aparentemente ilimitada de dinâmicas e timbres, dos quais vão lançando mão à medida que a partitura assim o requer.

Estava para concluir dizendo que a DSO parece não ter limites, mas, verdade seja dita, tais limites existem, sim, e se fizeram evidentes no bis, com uma Aquarela do Brasil de cintura dura e completamente fora do estilo. Nem esse “momento André Rieu”, contudo, chegou a tirar do brilho desse que se anuncia como forte concorrente a melhor concerto de 2012.