Eliane Coelho e Gustavo Carvalho: um duo para seguir de perto

Uma voz, um piano. Dito assim, parece simples. E deveria mesmo ser. Ainda preciso que alguém me explique, porém, por que recitais como o de Eliane Coelho e Gustavo Carvalho, que abriu no domingo a série da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, em São Paulo, são tão raros em nosso país.

 

A velha história de que ópera não tem público no Brasil não resiste aos números de bilheteria de qualquer encenação (independentemente da qualidade) em território nacional. Pois bem: seria tão difícil assim convencer essas pessoas que afluem aos magotes aos teatros para verem tenores e barítonos se esfaqueando pelo amor de sopranos a comparecerem a uma apresentação em que as mesmíssimas vozes se colocam a serviço da musicalidade mais refinada, sem derramamento de sangue?


Eduardo Monteiro, Eliane Coelho e Gustavo Carvalho [foto: Márcio Sartorello/ActoFacto Imagens/divulgação]

Concertos como o do último domingo me dão a convicção de que nossa vida musical comportaria, sim, uma presença mais robusta da música de câmara vocal. Para quem acha esse repertório “difícil”, nada como a breve, porém elucidativa fala de introdução do curador da série, o incansável e hiperativo Eduardo Monteiro, explicando o Lied germânico e, sobretudo, a musicalidade superlativa de Coelho e Carvalho.

Bem pensado, o programa trazia nove canções de Brahms, ao lado dos sete Lieder de juventude de Alban Berg. Embora seja conhecido como um dos próceres do dodecafonismo, Berg compôs essas canções em um idioma romântico tardio, não muito distante de Mahler ou Richard Strauss – continuidade, portanto, do próprio Brahms.

Variada do ponto de vista anímico e cronológico, a seleção brahmsiana abriu com Meine liebe ist grün, e passeou por glórias da poesia germânica, como Der Tod, das ist die kühle Nacht, sobre versos de Heine, e O kühler Wald, com poesia de Clemens Brentano.

Articulando as frases sem comprometer o legato que confere plasticidade às melodias, Coelho tem uma dicção tão clara que quem dominasse o idioma alemão poderia, sem dificuldade, anotar os textos de todas as canções, palavra por palavra. E mesmo quem não tivesse a menor noção da língua de Goethe poderia compreender o sentido do que estava sendo dito.

Afinal, se no atual estágio de sua carreira virou redundante discutir a qualidade da voz da soprano carioca, não parece ocioso ressaltar os ganhos de expressividade que sua experiência operística traz a cada Lied. Para além de proferir as palavras, ela sabe conferir a cada uma delas o devido peso semântico. Conclusão óbvia: as décadas de vivência no mundo austro-germânico e a familiaridade com o universo estético dos compositores abordados fazem de Coelho uma intérprete ideal desse repertório.

Não menos ideal é a parceria com Gustavo Carvalho, cujo apetite intelectual pantagruélico transcende os limites do piano e da música, habilitando-o a compreender as diversas camadas de significado incrustradas em cada uma dessas pequenas obras-primas. Se um pianista de Lied não pode atropelar a voz, tampouco deve se esconder atrás da linha vocal. Com personalidade, refinamento e sensibilidade, Carvalho sabe responder às necessidades de sua parceira, amoldar-se às flutuações de tempo e, ao mesmo tempo, colorir e construir um discurso musical conjunto. Deu vontade de seguir esse duo de perto.

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