Farewell to Martha Herr

Querida como mestra, imitada como artista, admirada como pessoa: a soprano Martha Herr não conseguiu pouca coisa em suas seis décadas de uma vida recentemente concluída.

 

Fiquei triste e chocado como todo mundo ao descobrir, pelo Facebook, que ela nos havia deixado tão prematuramente. Sim, aquele cabelo, aquelas roupas coloridas, aquele sorriso e aquele talento bem que poderiam ter ficado mais tempo conosco. Voraz, o câncer levou alguém que certamente ainda teria muito a contribuir por aqui nas diversas áreas do fazer musical a que se dedicou.


A soprano Martha Herr em ação no 49º Festival Villa-Lobos, em 2011 [fotos: Marcelo Rodolfo/reprodução]

Nascida nos EUA, onde amealhou os sólidos conhecimentos que tão generosamente disseminaria por aqui, Martha não negava a origem no saboroso sotaque que décadas de residência no Brasil não conseguiram apagar. Seria, contudo, mesquinho não reconhecê-la como brasileira pela magnitude da importância de sua atuação pela música de nosso país – na verdade, pouca gente nascida por aqui poderia apresentar credenciais nessa área tão expressivas como as dela.

Para meu gosto, quem melhor captou seu talento e temperamento foi o também saudoso Eduardo Guimarães Álvares (1959-2013), com as impagáveis Marthóperas (2006), para voz solo, a ela dedicadas, que tratam o universo do canto lírico com a mistura de inteligência, bom humor e insight que definiam tanto compositor, quanto intérprete.

Em uma trajetória marcada por dezenas de estreias de obras de compositores nacionais e estrangeiros, seria difícil até começar a fazer uma lista do que Martha realizou de mais relevante, da Europera V, de John Cage (1912-1992), em 1991, ao papel-título de Olga, de Jorge Antunes, no Theatro Municipal de São Paulo, em 2006, passando pelo labORAtorio, de Flo Menezes, em 2004. Saudosista, andei remexendo suas antigas gravações com o Grupo Novo Horizonte e a percussão do Grupo Piap, sob regência de seu ex-marido John Boudler (quem os ouviu executar, ao vivo, a Cantata para América Mágica, de Ginastera, dificilmente conseguirá aceitar outra interpretação da mesma peça), até chegar em um CD mais recente: A música de Gilberto Mendes, do Selo Sesc, cuja primeira faixa é Martha cantando Cavalo azul, de 1961.

Versátil, Martha interpretava também o repertório do século XVIII, de Gluck e Mozart, e atuou na histórica produção manauara da tetralogia O anel do nibelungo, de Wagner, mas era mais associada à música dos séculos XX e XXI – como o Pierrot lunaire, de Schönberg, do qual podemos ver um trecho aqui, em gravação de 2012, no Festival Virtuosi, no Recife.

Martha foi ainda uma pesquisadora ativa e uma professora daquelas que, sem exagero, marcaram época, graças a uma longa e frutífera atuação no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo. Tentar elencar seus principais alunos seria tão injusto como não reconhecer em Andrea Kaiser sua linha de continuidade técnica, estética, artística e espiritual.

Andrea deu apenas um dos múltiplos depoimentos emocionados que apareceram no Facebook em seguida ao falecimento de Martha. Eram amigos, colegas, alunos e – muito significativamente – discípulos “por tabela”: gente que não chegou a estudar com Martha, mas que se sentia, de alguma forma, influenciada pela força de seu exemplo. A estes junto, agora, o meu – algo atrasado, mas não menos sincero ou sentido.

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