Hermanos, compañeros de crise

por Marcos Fecchio 03/04/2011

O Teatro Colón, de Buenos Aires, parece ter conseguido um feito: o de reunir algo parecido com as crises da Orquestra Sinfônica Brasileira e do Municipal de São Paulo, porém em outro contexto. A versão portenha do conflito não é nada nova, já dura quase 20 anos, porém seu mais recente capítulo tem a curiosa coincidência da demissão de 41 músicos, o mesmo número de instrumentistas que podem ser demitidos na Orquestra Sinfônica Brasileira.

 

Para nós brasileiros, é invejável a reputação que gozou o também centenário Colón, sendo por décadas roteiro das grandes montagens internacionais de ópera. Tinha a fama de ser um dos melhores do mundo, mas o conflito da máquina administrativa estatal com os sindicatos e agremiações de músicos conseguiu minar gradualmente a força e importância do teatro, colocando-o em uma vergonhosa e profunda crise.


Teatro Colón [Foto: divulgação]

A longa reforma do teatro criou a expectativa de um retorno triunfal e vitorioso, da Fênix que voltaria a ter suas penas a reluzir. O investimento pesado do Governo restaurou completamente o teatro e modernizou as instalações, mas o cerne do problema permaneceu intacto. Com a reabertura recente do Colón, em 24 de maio de 2010, se intensificaram os conflitos, boicotes, assembleias e paralisações, inclusive com o cancelamento de apresentações na hora do concerto, com a casa lotada.

O diretor do Colón, Pedro Pablo García Caffi, disse que a atual gestão pretende melhorar os salários e as condições de trabalho, mas que enfrenta uma política abusiva das agremiações, caracterizadas pela insubordinação e pela indisciplina. Já os músicos e funcionários questionam a política dos gestores e reivindicam seus direitos e perdas.

Após a Orquestra do Colón aceitar se apresentar na semana passada com Plácido Domingo em um grande concerto em frente ao obelisco da Avenida 9 de Julho (e não no Colón!), o Ministro da Cultura da Argentina, Hernán Lombardi, chegou a afirmar que a iniciativa ajudaria a encontrar um caminho para resolver o conflito, mas 41 músicos acabam de receber por telegrama o comunicado da rescisão de seus contratos.

García Caffi afirmou ainda que “não se trata de ‘demissões’, mas sim de contratos que não tiveram continuidade”, e disse ainda que apesar das represálias, o teatro não será fechado.

O advogado de alguns dos dispensados lamentou a decisão justamente no momento em que havia um sinal importante para recompor as relações, dizendo que o Governo voltava a mostrar sua arbitrariedade na solução do conflito.

As realidades das duas orquestras do Rio e de São Paulo têm contextualizações distintas, realidades diferentes daquela de Buenos Aires, mas a essência dos problemas da gestão estatal ineficiente, dos conflitos com as agremiações, muitas vezes corporativistas, e a difícil e conturbada busca por elevar o nível da orquestra e os salários, são constantes e pontos comuns.

Nestes casos, muitas das semelhanças infelizmente não são mera coincidência.