Lívio Tragtenberg trabalha em Frankfurt com músicos refugiados

por João Marcos Coelho 23/05/2016

Definitivamente, o paulistano Lívio Tragtenberg, 55 anos, não obedece ao figurino convencional do compositor. Olhos e sobretudo ouvidos antenadíssimos às músicas que tecem o caleidoscópio sonoro do mundo, trabalha com os músicos como se eles fossem instrumentos musicais. São os músicos e músicas que compõem, como ele gosta de dizer, os nervos sonoros subcutâneos da metrópole. Música invisível para a cultura oficial. Música essencial na cidade. Foi com esta ideia que ele criou em 2004 a Orquestra dos Músicos de Rua de São Paulo. “Os músicos de rua no centro de São Paulo são a essência do nervosismo urbano que ocorre na cidade”, diz. “Agreguei os músicos imigrantes, que formaram a cultura de São Paulo: japoneses, russos, italianos, bolivianos, paraguaios etc. A ideia de uma orquestra representando esse mosaico nasceu com a junção dos músicos ‘genéricos’, que são os músicos de rua, com os músicos de ‘pedigree’, que são os músicos imigrantes com sua cultura de instrumentos típicos e músicas tradicionais.”

 

 

O músico paulistano Lívio Tragtenberg [divulgação]

E agora, com a ideia já amplamente testada em São Paulo, Lívio exporta a ideia para a Europa. Em 9 de junho ele embarca para Frankfurt, na Alemanha, onde trabalhará com músicos refugiados da Síria, Afeganistão, Eritréia, entre outros, num espetáculo que incorpora técnicas experimentadas com músicos de rua paulistanos na criação de música coletiva. O resultado será mostrado em apresentação marcada para 25 de junho, no Centro Cultural Mousonturm, em Frankfurt. O projeto intitula-se “Sound bridges experience”.

“O projeto nasceu no início deste ano”, diz Lívio à Revista CONCERTO, “por iniciativa de duas musicistas alemãs, Johanna-Leonore Dahlhoff e Isabella Kohls. Elas se juntaram a Julia Huk para montar uma orquestra que une em seu nome os conceitos de ponte e vínculos, enlaces, ligações: Bridges Verbindet”. A estreia aconteceu no último dia 19 de abril na Grande Sala de Frankfurt. Elas pediram a três compositores alemães que escrevessem peças para essa formação – incluindo também músicos de orquestra alemães voluntários. Não houve patrocínio, apenas apoio de instituições culturais e sociais.

Lívio conheceu o projeto em abril, assistiu a alguns ensaios e conheceu os músicos. “Minha proposta é diferente”, diz. “Não haverá composição pré-escrita, por mim ou por qualquer um, alemão ou não. Serão duas semanas de trabalho diário, conjunto com criação de novas músicas.”

O compositor brasileiro convidou músicos refugiados, que já participavam da primeira experiência, e também está agregando outros por meio de chamada pública. A ideia é trabalhar com cerca de 25 músicos.

O conceito principal é fazê-los dialogar musicalmente, misturando suas diferentes culturas, tradições, afinações e instrumentações. “Há gente da música africana do norte, do centro da África, de diferentes lugares do Oriente Médio e do Afeganistão. A ideia é fazer essas tradições conversarem entre si. Com vozes e instrumentos, textos.”

A concepção dos concertos será quase teatral. “Serão projetados vídeos realizados ao longo dos ensaios com imagens deles e de outras situações, sem cair na obviedade de mostrar o que já está sendo visto e ouvido. Uma disposição diferente no teatro do Mousonturm irá privilegiar a espacialização do som em 8 canais, numa dupla quadrifonia, colocando o público no meio da babel que irá se estabelecer.”

E, claro, Lívio utilizará táticas e estratégias previamente empregadas com as Orquestras de Músicos de Rua. Mas o grande diferencial, além da barreira linguística – praticamente cada um fala um idioma ou dialeto diferente – será o fato de serem todos exímios músicos, o que aumenta o desafio para conseguir colocá-los a soar com um todo.

“Já aprendi um pouco de árabe básico para emitir alguns comandos iniciais, mas tenho certeza, como já aconteceu em Miami e Berlim, que a língua será uma barreira apenas inicial no dia-a-dia do trabalho. Depois encontraremos um caminho natural de comunicação. A situação deles é bem precária na Alemanha, apesar dos esforços. Esse tipo de iniciativa visa, além de valorizá-los como cultura, também respeitá-los como profissionais com habilidades que podem fazer parte da sociedade alemã e europeia como qualquer outro cidadão imigrante.”

Entre os participantes já escolhidos por Lívio em sua primeira estada em Frankfurt, em abril passado, estão alguns músicos da Eritréia que tocam uma espécie de litra amplificada, com um som muito brasileiro e que são ótimos cantores.

O Mousonturm é um centro cultural dirigido por Matthias Pees, com quem Lívio Tragtenberg já trabalhou anteriormente em Berlim, na Volksbühne.

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