Murakami, um livro, um pianista

por João Luiz Sampaio 06/01/2015

Lazar Berman (1930-2005) foi um dos prodígios do piano russo do século XX. Ao contrário de alguns colegas, teve dificuldades para deixar a União Soviética – e talvez por isso não tenha atingido, no Ocidente, a fama de nomes como Sviatoslav Richter ou Emil Gilels. Em 2013, no entanto, a gravadora Universal correu para remasterizar e recolocar no mercado japonês sua interpretação dos Anos de peregrinação, de Liszt – e o CD tornou-se um hit, atingindo o primeiro lugar nas vendas clássica no país.

 

O motivo? A gravação de Berman é citada no novo livro do escritor japonês Haruki Murakami. Eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, o autor é um fenômeno em seu país – para se ter uma ideia, o romance O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação vendeu mais de 1 milhão de cópias no Japão, antes de ser traduzido para outras línguas. A versão em português, por sinal, assinada pela tradutora Eunice Suenaga, foi lançada no Brasil pela editora Alfaguara, em novembro do ano passado.


Haruki Murakami e a edição japonesa de Anos de peregrinação com Lazar Berman [imagens: divulgação]

A relação de Murakami com a música clássica é antiga e seus livros são testemunho disso, desde Norwegian Wood até a trilogia 1Q84, que começa com uma breve reflexão sobre a Sinfonietta de Janácek, em um táxi preso no trânsito de Tóquio. Seus fãs até criaram um website no qual é possível, livro a livro, verificar as citações musicais feitas pelo escritor (www.haruki-music.com). O próprio Murakami, em uma rara aparição pública, no ano passado, em uma universidade de Tóquio, contou que gosta de escrever ouvindo música e afirmou que “escrever é como tocar”.

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação é, de certa forma, uma história de formação. Tsukuru volta ao passado para resolver questões que lhe permitam encontrar uma identidade que, sem isso, seguiria fragmentada. A música de Liszt, mais especificamente a passagem batizada de Le mal du pays, tem importância fundamental nesse processo. É um elemento a aproximar o presente da experiência passada, mas também a definição perfeita de um estado de suspensão e melancolia que domina a narrativa. “Le mal du pays. Essa música melancólica, calma, oferecia aos poucos um contorno à tristeza indefinida que envolvia seu coração”, escreve Murakami. “Como se inúmeros grãos de pólen grudassem na superfície transparente de um ser que se esconde na atmosfera, e sua forma aparece silenciosamente diante de seus olhos. Dessa vez, foi surgindo a figura de Sara. (…) Sentiu novamente pontadas no peito. Não era uma dor intensa; era apenas a memória de uma dor intensa. (…) Todos vêm até Tsukuru, verificam quão vazio ele é e depois se vão, deixando para trás Tsukuru Tazaki vazio, ou ainda mais vazio, e sozinho. Era só isso.”

Um crítico definiu O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação como o livro mais “melódico” de Murakami. Talvez o seja, face ao caráter mais experimental de outros de seus trabalhos. Seja como for, há de fato algo de muito musical na maneira como a narrativa se constrói. E isso se dá especialmente pela maneira como a voz que nos conta a história se transforma, não pela presença de diversos narradores e diferentes pontos de vista, mas pela habilidade na construção de uma escrita que é, mesmo a partir de uma só voz, polifônica em sua essência. A música, no final das contas, não é apenas tema na escrita de Murakami.

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