Músicas diferentes exigem escutas diferentes

por João Marcos Coelho 08/04/2013

Uma carta me chamou a atenção na edição deste mês da Revista CONCERTO. Nela, reclama-se do excesso de música contemporânea na programação da Rádio Cultura FM, “na maioria dos casos insuportável (...)  não consigo aguentar tanto barulho e falta de musicalidade”.

 

A questão é mais importante do que parece. Na realidade, deve-se a uma mudança de atitude na escuta que exige a música contemporânea, quase sempre pensada como uma construção intelectual  racionalmente baseada em uma linguagem própria de cada compositor. Ao colocar a necessidade do novo a todo custo em seu horizonte criativo, o compositor acaba criando obras complexas que solicitam uma escuta atenta.

Ora, atualmente, a escuta que praticamos é aquela passiva. Somos bombardeados a todo momento por todo tipo de música, do lixo comercial à música de invenção do passado, já devidamente deglutida e reciclada como uma linguagem que nos entra pelos ouvidos redonda, aveludada, reconhecível e por isso mesmo memorável.

O bombardeio permanente que nos assola no iPod, no computador, no iPhone, na TV e no rádio acabou nos levando a praticar inconscientemente um mecanismo de defesa para salvaguardar nossos preciosos aparelhos auditivos. Nossos pavilhões auriculares rebaixam todos os sons que nos chegam. É mais ou menos como se ligássemos o piloto automático diante de todo e qualquer som que nos atinja.

Não é outro o motivo pelo qual – e como, cobertíssimo de razão já denunciava Erik Satie, que infelizmente não foi levado a sério nas primeiras décadas de seu tempo – hoje em dia “queremos” música como papel de parede sonoro, como mera trilha sonora somente agradável.

Assim, quando nos é proposto, de vez em quando, um tipo diferente de música, complexa e provocadora, nossa primeira reação é recusá-la. Música boa é aquela que nos permite continuar trabalhando em nossos afazeres em todas as horas do dia-a-dia, não aquela que ousa querer nos fazer pensar.

Quero deixar claro: não estou contra a argumentação da ouvinte da Cultura FM na citada carta. Minha intenção é só tentar explicar os motivos subliminares que a levam – e a 99,99% de todos que ouvem música – a esta postura. E não falo apenas das músicas que ouvimos em casa, no rádio, no iPod e outros aparelhos tecnológicos de última geração. Também os que compram ingressos para as salas de concerto, uma vez lá instalados, desejam aveludadas e apaziguadoras trilhas sonoras para seus ouvidos.

Como mudar isso? Sinceramente, não tenho a resposta. Já me dou por satisfeito se tiver conseguido colocar a questão em termos corretos e que levem o leitor-ouvinte a pensar, um pouco que seja, nos pressupostos de sua escuta.

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