Nelson Freire: quem sabe faz ao vivo

O Natal está chegando, e quem ainda for apegado à extemporânea prática de presentear com CDs tem agora duas opções com tudo para agradar incréus ou devotos dos mais diversos credos. A Sanctus Recordings está lançando no Brasil registros de dois recitais dados por Nelson Freire na década de 1980.

 

Nelson Freire live in Toronto capta a unanimidade do piano brasileiro se apresentando no Canadá, em 25 de março de 1984. Já Nelson Freire live in Miami mostra-o nos EUA, em 13 de dezembro do mesmo ano.


Capas das gravações ao vivo em Toronto e Miami, em 1984, relançados pela Sanctus [imagem: divulgação]

Fanáticos pelo astro mineiro (como o autor dessas linhas) talvez já conheçam os dois discos. O de Toronto saíra pela pequena etiqueta Alphée, enquanto o de Miami fora editado pela também pequena Audiofon. Esses CDs eram bastante difíceis de encontrar em qualquer lugar do mundo, mesmo na época em que foram lançados, e agora se encontram à disposição de todos que quiserem desfrutar do caleidoscópico talento do Reverendo Nelson.

Os discos cobrem uma espécie de “limbo” fonográfico na carreira do pianista. Depois das gravações recentemente reeditadas na caixa The Complete Columbia Album Collection, que compreende registros feitos entre 1967 e 1982, Freire ficou um bom tempo sem entrar em estúdio. E, na verdade, sua trajetória discográfica só adquiriria o ímpeto atual depois de sua entrada, em 1999, como o único brasileiro dentre os 72 participantes de Great Pianists of the 20th Century, projeto da Philips que se anunciava como uma espécie de enciclopédia em disco do piano ao longo do século que estava para se encerrar. Em consequência do êxito de seu volume (montado a partir de uma seleção de fonogramas pré-existentes), Freire assinou contrato de exclusividade com a Decca, com os resultados que estamos todos conhecendo.

Pois bem: o disco do pianista no projeto da Philips reunia faixas dos dois CDs que a Sanctus agora está trazendo ao mercado brasileiro. Do recital de Miami veio aquele compositor ao qual talvez associemos Freire de forma mais imediata: Chopin, com o Improviso nº 2, a Mazurka, op. 41, nº 1 e a Mazurka, op. 24, nº 4. A apresentação de Toronto contribuiu de forma ainda mais generosa, com a Sonata K. 332, de Mozart e, sobretudo, com uma leitura profunda e incandescente da Fantasia, op. 17, de Schumann.

Dada a distância relativamente reduzida entre os dois concertos (nove meses), surpreende que as coincidências de repertório sejam pequenas. As únicas peças que Freire apresenta em ambos os recitais são Evocación e Navarra, de Albéniz, Poissons d'or, de Debussy, e A lenda do caboclo, de Villa-Lobos.

Em Miami, é possível ouvi-lo tocar, dentre outros itens, a Sonata Alla turca, de Mozart, e quatro movimentos da Prole do bebê nº 1, de Villa-Lobos. Em Toronto, por seu turno, ele encara a vigorosa Sonata nº 4, de Scriabin.

Além de documentos da exuberância de um Nelson Freire na flor dos 40 anos de idade, os discos possuem qualidade artística e sonora suficiente para se deixarem saborear como páginas de grande música interpretadas de forma superlativa por um astro de primeiríssima grandeza. Eu só fiz uma breve pausa para escrever esse texto mas, agora que terminei, retomarei sua audição seguida e prazerosa. Convido você a fazer o mesmo.

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