O prazer d(n)os livros e uma vergonhosa semelhança

por João Marcos Coelho 25/08/2014

Há tempos não ia ao Rio de Janeiro. Esta semana, fui num bate-volta. E, como sempre fiz centenas e centenas de vezes, não deixei de passar na Livraria Leonardo da Vinci. Enquanto saboreava uma massa com funghi no minúsculo porém encantador bistrô em frente às vitrinas cheias de livros do mundo inteiro, reli o poema que um de seus frequentadores mais fieis, Carlos Drummond de Andrade, publicou em sua homenagem.

 

E quero compartilhar com vocês a emoção que senti ao degustar cada palavra, estampada na grande porta de vidro transparente da livraria.

Uma zanzada pela grande sala atulhada de livros e topo com dona Vanna, andando com dificuldade, de bengala. Vanna Piraccini é uma italiana de Bolonha que veio para o Brasil ao lado do marido advogado, em 1952 – e naquele mesmo ano montou a livraria no subsolo de um dos mais tradicionais edifícios do centro do Rio de Janeiro, na avenida Rio Branco, 185: o Marquês do Herval. Ela hoje praticamente ocupou todo o subterrâneo com livros, com quatro lojas contíguas.


Ilustre cliente: Carlos Drummond de Andrade na Livraria Leonardo da Vinci [foto: divulgação]

E vou até confessar um orgulho íntimo: como Drummond e muitos outros cariocas da gema, também tive conta na Da Vinci por muitos anos. Dona Vanna não se importava quando a conta subia demais e a gente pagava uma parcela mínima demais. O amor aos livros falava mais alto.

Jamais saí de mãos abanando de lá. Nesta visita, comprei, por uma pechincha, R$ 80, um livro pelo qual tinha bastante curiosidade: Mécènes et musiciens – du salon au concert à Paris sous la III République, da ótima Myriam Chimènes (Ed. Fayard, 2004).

A introdução já é um banquete. Chimènes põe lupa na vida musical parisiense no período 1870-1940. Massenet, Stravinsky, Debussy, Fauré, Poulenc, mas também Arthur Rubinstein, Clara Haskil e, claro, Magda Tagliaferro. Todos frequentaram os salões da elite francesa, tiveram obras encomendadas, fizeram muitos recitais e concertos em petit comité, ou seja, em circuito fechado. E sabem a que ela atribui o florescimento formidável dos salões da alta burguesia como local privilegiado da vida musical francesa por setenta anos-chaves para música moderna? À ausência de uma política musical definida do Estado, ao abandono sistemático do poder público à vida musical, sobretudo à música nova que forjava as revoluções estéticas do século XX.

Falamos tanto da necessidade de democratizarmos o acesso da população à música. Mas, como na França das primeiras décadas do século 20, no nosso Brasil deste início de século XXI a ausência de uma política cultural sólida e clara – sobretudo no universo da música clássica, de concerto e/ou de invenção – provoca apenas o florescimento de guetos reafirmando o elitismo de uma música que, por seus sons, deseja alcançar todos os ouvidos. Aqui com a agravante de que o sistema de ensino fundamental e médio simplesmente ignora a música de invenção, é mal e porcamente administrado em aulas que de música só têm mesmo o nome na grade curricular.

Por isso, qualquer semelhança, neste paralelo histórico, não é mera coincidência, mas vergonhosa semelhança.

Ainda vou mergulhar na leitura do livro. Por ora, fique com o emocionante poema de Drummond:

Livraria

Ao termo da espiral
que disfarça o caminho
com espadanas de fonte,
e ao peso do concreto
de vinte pavimentos,
a loja subterrânea
expõe os seus tesouros
como se defendesse
de fomes apressadas.

Ao nível do tumulto
de rodas e de pés,
não se decifra a oculta
sinfonia de letras
e cores enlaçadas
no silêncio dos livros
abertos em gravura.

Aquário de aquarelas,
mosaicos, bronzes,
nus,
arabescos de Klee,
piscina onde flutuam
sistemas e delírios
mansos de filósofos,
sentido e sem-sentido
das ciências e artes
de viver: a quem sabe
mergulhar numa página,
o trampolim se oferta.

A vida chega aqui
filtrada em pensamento
que não fere; no enlevo
tátil-visual de ideias
reveladas na trama
do papel e que afloram
aladamente dançam
quatro metros abaixo
do solo e das angústias
o seu balé de essências
para o leitor liberto.

Carlos Drummond de Andrade
(Poema em homenagem à Livraria Leonardo da Vinci)
In: As impurezas do branco
Editora Record, Rio de Janeiro

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