“O rouxinol”, ou a cereja do sundae

por Leonardo Martinelli 13/12/2012

Não há muitas dúvidas de que este ano o Teatro Municipal de São Paulo (TMSP) realizou uma das mais significativas temporadas líricas de sua história, contando regularmente com bons elencos vocais, montagens ousadas e títulos imponentes. Tendo isto em vista, a montagem da ópera O rouxinol, de Igor Stravinsky, foi o toque final, a cereja deste sundae substancioso, encerrando em grande estilo uma temporada memorável.

 

Esta produção repetiu o aclamado time que ano passado deslumbrou a plateia do TMSP com L'enfant et les sortilèges, de Ravel, produção esta que imperou na mais recente edição do Prêmio Carlos Gomes. Encontram-se novamente na principal casa de ópera paulistana a sempre competente Orquestra Experimental de Repertório, seu regente titular, o maestro Jamil Maluf, a diretora de cena Livia Sabag, que teve suas ideias visualmente materializadas pelo inspirado diretor de arte e cenógrafo Fernando Anhê.


Cena da ópera O rouxinol, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação / Adriano Scanhuela]

Estreado em Paris em 1914 – não muito tempo após a turbulenta estreia da Sagração da Primavera – a ópera O rouxinol traz ainda muito da dificuldade musical típica das partituras que Stravinsky compôs na década de 1910, desafio este em geral superado com segurança tanto pelo elenco orquestral como pelo vocal, que tiveram em Jamil Maluf um porto seguro métrico em meio às turbulências rítmicas da escritura stravinskiana.

Porém, em termos de espetáculo teatral, apesar de suas diminutas dimensões – em geral perfaz-se seus três atos em menos de uma hora – O rouxinol encerra um verdadeiro desafio cênico, tendo em vista a pouca preocupação com qualquer verossimilhança narrativa do libreto que Stravinsky assinou junto com Stepan Mitusov. Isto reforça sua dimensão simbólica e aumenta a carga de responsabilidade da encenação.

Apensar do curto espaço de tempo que tiveram para ocupar o palco do TMSP antes da estreia, Sagab e Anhê conseguiram superar estas dificuldades implícitas do título e criar um espetáculo fluente e visualmente bonito, apesar de a partir do segundo ato o trabalho de luz não ter ficado à altura do contexto cênico como um todo.


Cena da ópera O rouxinol, no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação / Adriano Scanhuela]

Construído de forma equilibrada, o elenco vocal deste Rouxinol foi estrelado pela bela voz da soprano russa Olga Trifonova. Ágil e segura de suas habilidades, Trifonova encantou (literalmente) com sua musicalidade rara e domínio de passagens em piano e pianissimo no registro agudo. Ou destaque foi o belo trabalho realizado pelo barítono Leonardo Pace (Imperador da China), que contracenou com Eric Herrero (Pescador), Daniella Carvalho (Cozinheira), Saulo Javan (Bonzo) e Silvia Tessuto (Morte), entre outros. Igualmente eficiente foi a participação do Coral Paulistano nesta produção, para a qual foi necessária uma preparação específica em idioma russo, em geral elogiada por aqueles que falam este idioma (o que não é o caso deste humilde crítico).

O ano do TMSP termina com o canto do rouxinol, e espera-se que este belo canto seja um bom agouro para a nova fase que a instituição necessariamente iniciará a partir do ano que vem, quando teremos o início de um novo ciclo político ocasionado pela troca de poder na prefeitura paulistana. Boa sorte a todos nós!