Obrigado, Lorin Maazel

Claudio Abbado, Rafael Frühbeck de Burgos e, agora, Lorin Maazel: em 2014, o mundo da música perdeu alguns dos regentes que foram referência ao longo da segunda metade do século XX.

 

A notícia do falecimento de Maazel já apareceu aqui mesmo, no Site CONCERTO, e houve bons obituários de João Luiz Sampaio e do New York Times. Assim, em vez de chover no molhado, gostaria de me concentrar na relação do regente com o Brasil.


Maazel foi um dos maiores regentes da segunda metade do século XX [foto: Chris Lee/divulgação]

Maazel foi casado com a pianista brasileira Miriam Sandbank e, embora a união tenha terminado em divórcio, serviu para criar laços desse músico superlativo com nosso país. Guardo com carinho o LP da Deutsche Grammophon em que, à frente da Orquestra da Rádio e Televisão Francesa, ele não apenas rege, como narra, em português com sotaque, o Guia dos jovens para orquestra, de Britten (o lado B do disco é Pedro e o Lobo, de Prokofiev, com locução de Tereza Raquel). Em 2007, quando Maazel veio ao Brasil para dirigir uma memorável versão concerto da ópera Aida, de Verdi, na Sala São Paulo, com a Orquestra Sinfônica Arturo Toscanini, perguntei-lhe se ele ainda falava nosso idioma. “Sim, mas muito desajeitado”, foi a resposta – em inglês, por e-mail. “Sinto falta de prática. É uma língua charmosa, e muito rica”, completou.

Outra relíquia – adquirida em um sebo de Belém do Pará – é o CD do selo Auvidis, no qual ele dirige os Choros nº 6, de Villa-Lobos, à frente de uma World Philharmonic Orchestra, constituída por membros de sinfônicas de todo o planeta – ao todo, 60 países, da Guatemala à Índia. Feita ao vivo, no Rio de Janeiro, em 1986, a gravação ainda hoje se deixa ouvir com muito prazer.

Ao vivo, vi Maazel pela primeira vez em 1995, quando ele esteve no saudoso Teatro Cultura Artística com a Sinfônica da Rádio da Baviera. Dizem que, naquela época, seu salário era de US$ 3,8 milhões, o que fazia dele o regente mais bem pago do mundo. Como o dinheiro não saía do meu bolso, minha impressão, à época, foi de que ele valia cada centavo, com uma execução deslumbrante e exuberante de obras de Richard Strauss, mesmo compositor que Maazel interpretou, com igual brilho, em 1999 – dessa vez, já na Sala São Paulo, e com uma Filarmônica de Viena exibindo perfeições inauditas por aqui.

Em 2002, ele fez uma aparição inusitada, na série do Mozarteum Brasileiro. Naquela oportunidade, Maazel estava agendado para voltar ao Brasil com a Sinfônica da Rádio da Baviera. Era, porém, época de epidemia de dengue, e os músicos da orquestra, receosos, preferiram não vir a nosso país (ou, pelo menos, essa foi a história que nos contaram à época). Como resultado, viajou apenas o regente, para um dos melhores concertos da história da Orquestra Experimental de Repertório, culminando com uma leitura intensa da Sinfonia nº 1, de Brahms. À época, a OER participou ainda da etapa sul-americana do Concurso Internacional de Regência Maazel/Vilar, que contava com um concorrente chamado Gustavo Dudamel (na final, em Nova York, em dezembro de 2002, o primeiro prêmio foi dividido entre a chinesa Xian Zhang e o tailandês Bundit Ungrangsee).

Em 2007, houve a Aida que já mencionei acima e, em 2011, ele foi convocado pela OSB para substituir Kurt Masur em um Festival Beethoven, com todas as sinfonias do compositor alemão. Infelizmente, à época a orquestra estava no centro de uma inflamada polêmica internacional devido a seu conflituoso processo de reformulação, e toda a discussão acabou tirando o foco da parte artística dos concertos. Eu já estava me preparando para ver, agora em 2014, Maazel dirigir a OSB “pacificada”. Pena que sua saúde não permitiu que isso acontecesse. Fica a gratidão por algumas das performances mais marcantes que tive a sorte de assistir. Se eu agradecer em português, acho que ele entende. Portanto, deixo aqui meu “obrigado, maestro”.

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