Orfeu nas alturas

por Leonardo Martinelli 30/10/2012

Mais do que uma história, o mito é, na verdade, um sonho coletivo, defendeu muitas vezes o especialista em mitologia comparada Joseph Campbell. Por isto mesmo o mito traz consigo um enorme potencial interpretativo, predicado este que se manifesta nas múltiplas versões que um determinado mito necessariamente encerra.

 

As desventuras de Orfeu, o semideus da música, no resgate de sua amada Eurídice do mundo dos mortos está na raiz da própria história da ópera, onde ganhou diferentes versões ao longo dos tempos e, por sua vez, consolidou outros sub-mitos (ou mito-ópera) a partir desta semente em comum. Temos o Orfeu de Jacopo Peri, o de Claudio Monteverdi e entre tantas versões hoje desconhecidas, sobressai a versão de Christoph Willibald von Gluck, estreada em 1762.


Cena da ópera Orfeu e Eurídice, na Praça das Artes [foto: divulgação]

A reinterpretação do mito é uma dinâmica fundamental para mantê-lo ligado ao tempo presente e, desta forma, reafirmar sua relevância. É por esta perspectiva que podemos analisar a mais recente produção do Teatro Municipal de São Paulo (TMSP), um Orfeo ed Euridice de Gluck que nos fornece não apenas uma versão moderna do mito-história e do mito-ópera, mas também descortina novas e instigantes possibilidades para o universo naturalmente conservador do teatro lírico como um todo.

Contando com a direção de cena de Antonio Araújo – aclamado diretor do Teatro da Vertigem – a produção não foi realizada no palco do TMSP, mas sim numa área em construção da Praça das Artes, complexo arquitetônico que deverá abrigar escolas e corpos estáveis da secretaria de cultura paulistana. O dito “espaço alternativo” é o habitat natural de Araújo, que anteriormente já realizou produções teatrais em barcas, hospitais e presídios.

Em sua versão para este mito-ópera, Araújo assume para si o fardo de Orfeu ao resgatar das trevas a essência do mito-história que se perde no libreto de Ranieri de' Calzabigi, utilizado por Gluck, em especial seu improvável happy end, com Orfeu e Eurídice vivendo felizes para sempre, ao contrário da tragédia reservada a este herói infeliz.


Cena da ópera Orfeu e Eurídice, na Praça das Artes [foto: divulgação]

Para isto, o diretor e sua equipe trabalham em dois níveis: o da metáfora e o da metalinguística. Temos o mito visto pela perspectiva de um paulistano dos dias de hoje. Neste teatro de associações, Eurídice é uma ciclista morta em um atropelamento. O Amor uma ricaça do comércio dos prazeres e das ilusões. O inferno é o pão nosso de cada dia da maioria dos mortais contemporâneos, se espremendo em metrôs cheios ou debaixo das pontes. O Champs-Élysées é o próprio bairro dos Campos Elíseos paulistano, hoje rebatizado como Cracolândia, a ser higienizado de forma brutal pela tropa de choque, que abre espaço para um Campos Elíseos artificial, seguro e asséptico.

Aqui Orfeu atua como pivô entre a metáfora e a metalinguística. O semideus músico é um maestro, que emerge do fosso da orquestra (no caso, uma piscina seca), e que no ato de encantamento das almas perdidas chega mesmo a tomar a batuta do maestro para reger a orquestra que o acompanha. Sem comprometer nada da música, Araújo subverte o libreto ao fazer da segunda ressurreição de Eurídice uma mera artimanha de Amor, que cria para Orfeu um simulacro que, na prática, já é a ante-sala de sua morte.


Cena da ópera Orfeu e Eurídice, na Praça das Artes [foto: divulgação]
 
Porém, todo este virtuosismo cênico em nada serviria não fosse a competente atuação das forças musicais envolvidas nesta produção, que contou com a direção musical de Nicolau de Figueiredo, à frente da Orquestra Sinfônica do TMSP e do Coral Paulistano, ambos os grupos em atuações exemplares. Cravista de formação e especialista em música antiga, com gestos amplos e teatrais, Figueiredo conseguiu obter um excelente resultado sonoro, com bonitas soluções com músicos em movimento e espalhados por diversos pontos do local de espetáculo, incluindo um inspirado solo nas alturas do flautista Marcelo Barboza.

O conjunto da obra chega a sua perfeição quando evocamos as vozes solistas em cena. Ainda pouco ouvida por aqui, mas já trilhando notável carreira internacional, a curitibana Kismara Pessatti (Orfeu) é detentora de um raro, belo e colorido timbre de contralto, que ela domina com arte, aliada a uma estupenda atuação da exigente parte cênica que Araújo reservou para ela. Suas parceiras de cena não são menos excelentes, e outro grande atrativo desta montagem é possibilidade de ouvir tão de perto (quando não em um verdadeiro cara a cara) as grandes atuações vocais de Edna d’Oliveira (Amor) e Gabriella Pace (Eurídice). As características arquitetônicas do espaço demandaram que as partes vocais fossem discretamente amplificadas, o que em nada diminui o excelente trabalho realizado por este dream team vocal.

Ao final do espetáculo projetou-se na parede o texto “que o mundo inteiro sirva ao império da beleza”, frase de Orfeu extraído do próprio libreto. Mais do que mera citação, trata-se mesmo uma confissão de fé, um pacto com a arte firmado de forma maiúscula nesta produção desde já mítica.