Orfeu nos infernos

por Nelson Rubens Kunze 01/11/2012

Fui ontem (31/10) assistir ao Orfeu e Eurídice de Gluck, nova produção do Teatro Municipal de São Paulo. Se você ainda não leu a excelente crítica de Leonardo Martinelli no Site CONCERTO, leia agora [clique aqui para ler]. Leonardo produziu um belo texto, “Orfeu nas alturas”, com uma esclarecedora e interessante interpretação da encenação do diretor cênico Antonio Araújo. Concordo com ele, gosto das montagens modernas. O conceito deste Orfeu lembrou o do Dido e Enéas de anos atrás, que então elenquei como das melhores produções do teatro naquele ano [leia aqui a minha resenha do Dido e Enéas].

 

Infelizmente, contudo, a parte boa do espetáculo terminou aí. A ópera foi montada dentro de uma obra (obra mesmo – não se aventure se você não estiver disposto a encarar tapumes e banheiros químicos sem iluminação!), em um espaço formado por uma “caixa de concreto” que no futuro será a sala de ensaios da Orquestra Sinfônica Municipal. Ok, um espaço com essas “características” pode ser muito estimulante para as ideias pouco ortodoxas de Antonio Araújo, mas não com todo ruído externo e uma temperatura ambiente que deveria estar acima dos 30 graus. Fácil deduzir que quem pagou a conta foi a música. O som da orquestra ficou comprometido e, para piorar, a amplificação das vozes solistas (concordo que imprescindível para esta montagem) estava desigual e desequilibrada. Os músicos, solistas, coros e maestro suavam em bicas (e nós também!), em um esforço que não sei se foi muito recompensador...

Não me interessam os formalismos e gosto de ideias novas. Acho também que temos de experimentar fórmulas diferentes (como essas propostas por Antonio Araújo) para alcançar novos públicos, revitalizar a ópera, integrar organicamente a música clássica na comunidade etc. Mas saí com a impressão de que o resultado da montagem – instigante que foi – não fez jus à partitura de Gluck, muito menos às excelentes vozes de Kilmara Pessatti, Gabriella Pace e Edna d’Oliveira, ao extraordinário maestro Nicolau de Figueiredo, aos músicos da Sinfônica Municipal e aos cantores do Coral Paulistano.

Ficou faltando a música para “que o mundo inteiro sirva ao império da beleza”...