Palácio das Artes encena “Rigoletto”, de Verdi

por Nelson Rubens Kunze 27/10/2014

Um palhaço corcunda cabe mesmo bem em um circo, e foi este o espaço que o diretor cênico André Heller-Lopes escolheu para a encenação de Rigoletto, de Verdi, nova produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte. O bobo da corte do duque de Mântua, baseado no libreto de Francesco Maria Piave por sua vez inspirado na obra Le roi s’amuse (O rei diverte-se), de Victor Hugo, encontra-se de volta em Paris, por volta de 1850. É a época em que Verdi escreveu a ópera que, em conjunto com La traviata e Il Trovatore, marca o primeiro ciclo de obras-primas do compositor italiano.

 

O palhaço Rigoletto na encenação do Palácio das Artes [foto: divulgação / Netun Lima]

As lonas da tenda do circo fechando toda a parte de trás do palco, sustentadas pelas estruturas metálicas, dominam o espetáculo. Um picadeiro, gaiolas, escadarias metálicas e amplas cortinas, em inventivas e variadas configurações, definem as diferentes cenas. Bailarinas e uma trupe de palhaços animam as cenas do circo; as bailarinas retornam no terceiro ato, como um bonito contraponto poético ao cruel assassinato da ingênua Gilda. A montagem de Heller-Lopes, de corte tradicional, oferece suporte adequado para a narrativa e é funcional e bonita. (No terceiro ato, o diretor insere uma novidade; na sequência em que Rigoletto descobre ser Gilda a pessoa moribunda dentro do saco, Heller-Lopes faz a personagem aparecer e cantar no alto da escadaria, como se fosse seu próprio espírito. Heller-Lopes já havia utilizado esta mesma solução no Werther encenado em 2012, no Theatro São Pedro, em São Paulo.)

Cena do Rigoletto do Palácio das Artes [foto: divulgação / Netun Lima]

Mas o destaque da récita do sábado, dia 25 de outubro, foi o desempenho muito bom do elenco, o “segundo”. Em primeiro lugar, o barítono Rodolfo Giugliani, que parece feito para o papel de Rigoletto. De poderosa voz e com grande desenvoltura teatral, Giugliani construiu seu personagem com os recursos de um grande artista. Gilda foi interpretada pela jovem e talentosa Lina Mendes, que trilha promissora carreira (em São Paulo, Lina recentemente fez uma elogiada Cunegundis do Candide de Bernstein, com a Osusp e depois, em substituição a uma solista adoentada, com a Osesp). A soprano tem uma voz privilegiada, de boa projeção, e a qual sabe imprimir ricos matizes tímbricos. Com naturalidade cênica, Lina fez bom par com o Rigoletto de Giugliani (os dois já haviam feito a dobradinha no Theatro Municipal de São Paulo, em 2011). O terceiro solista da noite, no papel do duque, foi o tenor brasiliense Jean Nardoto. Jean tem uma boa e sonora voz, que poderia ser ainda mais expressiva se o cantor emprestasse mais riqueza e variedade às articulações e aos vibratos.

Cabe mencionar ainda, como destaques, a atuação do baixo Mauro Chantal como Sparafucile – de marcante voz – e a sempre excelente mezzo soprano Denise de Freitas, que fez uma participação especial como Maddalena. Não por acaso, suas cenas de conjunto do terceiro ato estiveram entre os melhores momentos do espetáculo. Completaram a time de cantores Carolina Rennó (Giovanna), Eduardo Sant’Anna (Monterone), Marullo (Vinicius Atique), Thiago Soares (Borsa), André Fernando (conde Ceprano), Aline Lobão (condessa Ceprano), Vinicius Abreu e Danielle Rocha.

A ópera contou com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e a Cia. de Dança Sesiminas, sob direção do mastro Marcelo Ramos, que também esteve incumbido da direção musical. Pequenos desencontros não comprometeram uma performance no todo bastante orgânica.

Rigoletto segue a tradição de boas encenações de títulos de Verdi no Palácio das Artes – ano passado tivemos O baile de máscaras. Infelizmente, contudo, esta foi a única ópera produzida pela instituição em 2014 – ano passado foram três! Esperemos que, passada a Copa do Mundo, Minas Gerais (e o Brasil) possa retomar (e incrementar!) sua habitual programação cultural.

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[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte e assistiu ao Rigoletto a convite da Fundação Clóvis Salgado / Palácio das Artes.]