Para conhecer Claudio Santoro

Em meio ao desolador cenário de cortes orçamentários de gestores que parecem ter elegido a música como o inimigo a ser exterminado, e anunciar um cenário de terra arrasada para 2017, recebemos, no apagar das luzes do ano que deseja apagar as luzes em nosso país, uma eloquente prova da grande diferença que um pequeno e preciso investimento em Cultura pode fazer.

 

Trata-se de Santoro Inédito, precioso e pertinente disco do fagotista Fábio Cury e do pianista e cravista Alessandro Santoro, viabilizado graças aos recursos do ProAC, o Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo, e que traça um recorte preciso e estimulante na obra de um dos mais versáteis criadores da música de nosso país: o amazonense Claudio Santoro (1919-1989).


[Reprodução] 

Santoro foi um compositor e regente de brilhante carreira nacional e internacional, um antropófago de incansável apetite intelectual, que devorou, digeriu e devolveu os diversos e díspares idiomas musicais praticados durante sua existência. Não custa lembrar que foi o proto-dodecafonismo instintivo de um jovem Santoro que levou seu mestre, Koellreutter, a estudar sistematicamente e propagar no Brasil o sistema de Schönberg. Irrequieto, Santoro foi também compositor tonal de viés nacionalista, praticou as técnicas serialistas e “experimentais” filhas de Darmstadt e adotou, no final da carreira, uma linguagem “pós-moderna” que parecia abarcar e sintetizar toda sua experiência prévia.

Pois bem: Santoro inédito oferece amostras das diversas fases da carreira do compositor, de um afrancesado Prelúdio I para piano solo, de 1938 (descoberto por Alessandro Santoro em 2007), ao sucinto Prelúdio XXIX, também pianístico, do ano de seu falecimento, 1989. Entre obras originais para o instrumento e transcrições, a técnica exuberante e a musicalidade Fábio Cury passeia com enorme familiaridade pelos diversos estilos do disco, desacompanhado ou em duo com Alessandro, filho do compositor e autor das úteis, elucidativas e informativas notas de programa que acompanham o álbum.

Estimulando ainda a criação contemporânea, Cury e Santoro incluem uma interessante Sonatina para cravo e fagote escrita expressamente para eles em 2014 pelo jovem compositor Carlos dos Santos, 26, fechando o álbum com um Prelúdio Remix com vocação de pista de dança, do DJ Raffa Santoro, irmão de Alessandro. Como dica de presente de Natal, talvez já esteja muito em cima da hora: de qualquer forma, trata-se de um CD com relevância e qualidade para ser ouvido em qualquer época do ano, para presentear qualquer ente querido ou a si mesmo.

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