Para um pianista de mão cheia, uma crítica a quatro mãos

Dizem que as boas coisas da vida sempre chegam de forma inesperada. Não que a vinda Stephen Hough não estivesse precedida de alguma expectativa, mas o fato é que nesta semana de atividades em São Paulo o pianista inglês propiciou uma série de gratas surpresas ao público, culminando com um excepcional recital solo no último domingo.

 

Mas antes de falarmos de suas façanhas, deixe-nos apresentar Mr. Hough. Por aqui, a gente o conhece devido a uma discografia prolífica, versátil e incrivelmente variada. Mas o fato é que esse irrequieto britânico-canadense de 49 anos de idade não se contenta em ser simplesmente um dos mais destacados pianistas de sua geração. Poeta, blogueiro, compositor e escritor, Hough defende sua homossexualidade com o mesmo fervor com que professa sua fé católica.

Este aspecto multifacetado da vida do pianista ficou evidente no bate-papo promovido pela Folha de S. Paulo na quarta-feira que precedeu o primeiro concerto que Hough com a Osesp. No evento, com a presença do colega pianista Eduardo Monteiro e de Leonardo Martinelli, e mediação de Sidney Molina, Hough se revelou um pensador profundo, cuja articulação verbal e sofisticação jamais se confundem com pedantismo ou arrogância. Vale visitar seu website: http://www.stephenhough.com/

Foi com expectativa elevada, assim, que, na sexta-feira, fomos vê-lo executar o Concerto nº 2 para piano e orquestra de Liszt, acompanhado pela Osesp, sob a batuta de Sir Richard Armstrong - que, em 2009, conduzira a orquestra em uma antológica execução de Der Rosenkavalier, de Richard Strauss.

Os integrantes da Osesp estavam evidentemente satisfeitos com Armstrong, tocando com disposição maior que a habitual. Hough também demonstrou uma concepção amadurecida da obra, embora boa parte de sua sonoridade sólida e robusta tenha se esvaído na longa distância entre o palco e o grotão profundo da Sala São Paulo em que a crítica foi exilada.
Assim, se a apresentação de Hough com a orquestra já teria valido a pena, o melhor de tudo ainda estava por acontecer, com o recital que o pianista daria mesmo após três dias seguidos de apresentações com a orquestra. Pudemos nos instalar mais perto do intérprete e finalmente examinar sua musicalidade com a minúcia merecida.

 

Foi então que ficou evidentemente manifesta toda grandeza da arte de Hough, a começar pelo repertório selecionado. Iniciando com a famosa Sonata ao Luar de Beethoven, Hough estabeleceu uma relação de intimidade com a audiência, alternando sonoridades de extrema delicadeza em seu primeiro movimento com violentos ataques no movimento final. Ouvida isoladamente, a interpretação desta sonata foi pouco ortodoxa, quiçá “anti-estilística”. Mas aqui não se trata de uma Sonata ao Luar de luz própria. Sua órbita já estava sendo alterada pelos ecos futuros dos corpos celestes-musicais de Janácek, Scriabin e Liszt, prenunciando uma concepção musical rara e feliz na qual um recital de piano não é encarado como um amontoado de obras: o recital como um todo é a obra.

Começamos a nos entreolhar durante a execução de 1.X.1905, composição de Janácek cujo título faz alusão à execução do trabalhador tcheco František Pavlík (1885–1905) durante uma execução. Não, ele não toca Janácek “só” para ser diferente: crê nesta música e a compreende profundamente, articulando um discurso musical rico em nuances, ênfases e inflexões.

Depois vieram duas obras contemporâneas do compositor tcheco, mas de caráter completamente distinto: a quarta e a quinta sonatas de Scriabin. Trata-se de repertório que ele vai gravar em breve e, a se julgar pelo que fez ouvir na Sala São Paulo, vale esperar pelo disco. Foram leituras vigorosas e cheias de personalidade, surpreendendo especialmente o “suingue” de que ele dotou a Sonata nº 5, que Sviatoslav Richter considerava uma das peças mais difíceis de toda a literatura pianística.

A curva ascendente desenhada por Hough no seu recital culminou com a Sonata em si menor de Franz Liszt, verdadeiro monumento sinfônico para piano solo que encerra diversos desafios de ordem técnica e interpretativa. Uma das grandes virtudes de Hough é a plena segurança e confiança que ele passa nesta peça que, não raro, pianistas se põe na perigosa condição de equilibristas na corda bamba. Errinhos bobos aqui e acolá não foram suficientes para que esta sensação de segurança fosse dissipada.

Mas para além de sua robustez técnica, em sua interpretação da Sonata em si menor Hough deslumbrou a todos pela exuberância de seus coloridos. Em sua paleta de cores há desde intensos contrates entre tutti sinfônicos e pianíssimos solos, passando por delicados matizes em tons pastéis. Se enquanto compositor o húngaro Franz Liszt é um catalisador de diferentes matérias primas, Hough conseguiu explicitar como poucos os diferentes universos presentes nesta sonata.

Mas toda esta sofisticação poderia ir abaixo não fosse o fato deste recital ter ocorrido em boas condições de escuta. Para a ocasião a Sala São Paulo foi metamorfoseada em um espaço de câmara: apenas a metade frontal da plateia foi utilizada, separada do restante da sala por uma esvoaçante cortina branca, que ajudou a delimitar o espaço acústico. O teto foi rebaixado ao nível mais baixo possível, logo acima do primeiro balcão lateral, e no palco foram dispostas várias cadeiras ao redor do piano, o que conferiu maior intimismo à ocasião. Foi uma maneira eficiente de simular um ambiente acústico que promete abrigar ainda os recitais de piano de Angela Hewitt, Yuja Wang e Steven Osborne.

Maneira inteligente de aproveitar a presença em São Paulo de artistas que já vão se apresentar com a orquestra, os recitais solo da Osesp, iniciados sem alarde há alguns anos, vêm se revelando a prova de que boas ideias de programação não precisam necessariamente ser mirabolantes. Esperamos pelos próximos!