Petrobras Sinfônica apresenta ótimo Janácek

por Nelson Rubens Kunze 25/10/2010

Bela, independente, talentosa, atraente e jovem. Idade? 337 aninhos! Se um humano mortal no período de uma vida já é capaz de provocar muita confusão, imagina em 337 anos. Pois esse é o caso de Emilia Marty, ou melhor Elian McGregor (ou será Elsa Müller, ou Eugenia Montez, ou ainda Ekaterina Myshkin), nascida em fins do século XVI com o nome de Elina Makropulos. Como ela mesma diz, “tenho netos espalhados por todo mundo”. Mas agora, Emilia Marty tem de enfrentar a dura realidade da vida, ou seja, a morte. É que a poção que ingeriu aos 16 anos e que lhe daria a eterna juventude, deu-lhe “apenas” mais 300 anos de vida – e o efeito passou. Um probleminha que pode ser superado se ela encontrar a receita desenvolvida por seu pai, o alquimista Hieronymos Makropulos, que ficou no armário do corredor da casa de um de seus amantes (na época ela se apresentava como Elian McGregor), com quem tivera um filho, lá pelos idos de 1816. E ela acaba de encontrar um elo que pode levá-la de volta àquele armário. Um de seus netos ilegítimos (ou será bisneto?) reclama na justiça parte da herança de seu suposto avô, justamente aquele amante de Elian McGregor, em um processo que já dura quase 100 anos.

 

Salvo alguma imprecisão cronológica ou genealógica, é mais ou menos esse o pano de fundo de O caso Makropulos, ópera em 3 atos do tcheco Leos Janácek, apresentada em primeira audição brasileira no último dia 23 de outubro, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, pela Orquestra Petrobras Sinfônica sob direção de Isaac Karabtchevsky. E foi uma noite memorável!

Primeiro, pela produção: um inspirado concerto cênico, em que a ação era representada no proscênio com a orquestra ao fundo. A direção de cena de Carla Camurati, que também é presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, alcançou um resultado muito feliz.

Depois, pelo desempenho da orquestra e pela magistral regência do maestro Karabtchevsky. Janácek é um grande compositor (em 2003 Ira Levin nos mostrou, encenada, a sua obra-prima Jenufa no Municipal de São Paulo), e ainda que Makropulos não seja considerada uma de suas composições mais importantes, a música é impactante, de rica inventividade. O espetáculo tem forte teatralidade e foi emocionante acompanhar a linha dramática da narrativa conduzida por Karabtchevsky, com maestria, até a confissão de vida de Elina Makropulos, no terceiro ato.

E por último, e quiçá mais importante, pelo ótimo elenco, em primeiro lugar a espetacular soprano alemã Gun-Brit Barkmin, que fez o papel de Elina Makropulos. Gun-Brit domina o papel que já realizou em duas produções europeias, tem ótima presença cênica, voz e inflexões dramáticas perfeitas, e compôs seu personagem com absoluta convicção. (A soprano já esteve no Brasil anteriormente – em 2008 cantou Anna de Os sete pecados capitais de Brecht/Weil, no Rio de Janeiro e no Festival de Inverno de Campos do Jordão.) Gun-Brit atuou com o tcheco Josef Zednik e com os brasileiros Savio Sperandio, Sergio Weintraub, Flavia Fernandes, Randal Oliveira, Ewandro Stenzowski, Geilson Santos, Carolina Faria e Fabrizio Claussen.

Resta lamentar que um concerto tão especial fique restrito a uma única récita em um Teatro Municipal ocupado em talvez 70% de sua capacidade. Ainda que exigentes, acredito que são esses títulos – com produções competentes como a da Petrobras Sinfônica – que têm força para agregar novos públicos para a ópera e para a música de qualidade.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu a O caso Makropulos a convite da Orquestra Petrobras Sinfônica.]