Projeto Arranjadores: quando popular + erudito = música de primeira

Repertório escolhido com rara felicidade, execuções de alto nível, material gráfico de bom gosto, qualidade sonora apurada: não é todo dia que uma orquestra brasileira lança um CD tão empolgante quanto o álbum triplo "Arranjadores", da Orquestra Experimental de Repertório.

 

Tenho idade suficiente para me lembrar da criação do projeto, há exatos 20 anos, por Benjamin Taubkin, Maria Julia Pinheiro e Myriam Taubkin, no saudoso Teatro Cultura Artística, na rua Nestor Pestana. Naquela época, a OER, do maestro Jamil Maluf, não tinha mais que dois anos de existência. Contudo, já era um celeiro de craques. Ler a lista de músicos presentes naqueles concertos é ver que dali estavam destinados a sair nomes-chaves da vida musical em nosso país. Confira: Arcádio Minczuk (oboé) e Roberto Minczuk (trompa), Eduardo Gianesella e Ricardo Bologna (percussão), Fabio Cury (fagote), Ana Valéria Poles e Pedro Gadelha (contrabaixo), Renato Bandel (viola), Davi Graton e Eliane Tokeshi (violino)... Poderia seguir elencando indefinidamente.

A seleção musical deste lançamento em CD, a partir das gravações realizadas no Cultura Artística, também foi feita com extrema sensibilidade e bom gosto, equilibrando as tendências daquela época, mas sem se esquecer dos grandes nomes do passado. Assim, Guerra-Peixe faz sua última atuação como regente e derradeira gravação, em um registro dos Afro-Sambas, enquanto a maestria de Radamés Gnattali é homenageada com uma interpretação eletrizante de seu Concerto para quarteto de cordas e orquestra, tendo como solista o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo (naquele tempo integrado por Cláudio Cruz e Maria Vischnia aos violinos, com Marcelo Jaffé na viola e Robert Suetholz ao violoncelo).

Fazem-se presentes alguns arranjadores dos quais muito se fala, mas cuja música pouco se executa, como Léo Peracchi e Lyrio Panicali, bem como nomes que vão participar do concerto de lançamento do disco, no Municipal de São Paulo, em 11 de agosto, como Duda do Recife e Egberto Gismonti.

Mas o destaque para mim foi o inquieto, surpreendente e saudoso Rogério Duprat, demonstrando que o diálogo entre o popular e o erudito pode ir muito além do “crossover” insuportavelmente “kitsch” e edulcorado de André Rieu e seus genéricos de menor renome.

Duprat comparece com elaboradas orquestrações de peças para piano de Satie e um arranjo para lá de inventivo de Frakt = DX – [MAC (RD)²]M, do sobrinho Ruriá Duprat. Envolvendo sintetizadores e computador, a obra incorpora a técnica não como fetiche, mas como parte de um discurso musical ousado, fazendo o popular e o erudito conversarem no mais interessante dos registros – o da música de invenção.

Ouvindo "Arranjadores", não dá para não sentir uma pontinha de melancolia com as até agora desastradas iniciativas da Osesp na direção do “crossover” brasileiro. Tudo bem que encomendar obras envolve mesmo um certo risco, e talvez seja simplesmente questão de azar o fato de as recentes encomendas da Osesp a autores vindos da música popular terem oscilado entre a obviedade e a vergonha alheia. De qualquer modo, não seria má ideia se os chefões da Sala São Paulo ouvissem com atenção as obras de "Arranjadores" e daí, quem sabe, pensassem em programar grandes compositores brasileiros hoje negligenciados pela orquestra, como Guerra-Peixe, Gnattali e Rogério Duprat. Nossa música só teria a ganhar com isso.

Em breve o CD "Arranjadores" estará disponível na Loja CLÁSSICOS.

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