Quando os irreverentes se vão (in memoriam Mauricio Kagel & Flavio Florence)

por Leonardo Martinelli 22/09/2008

É um pouco difícil detectar como tudo começou, mas não é tão incomum associar a música de concerto a um ambiente sisudo e exageradamente sério (com todos aqueles músicos portando fraques e levantando cerimoniosamente quando na presença do sumo-sacerdote, o maestro), onde risos não são lá muito bem-vindos. A verdade é que ao longo da história da música nem sempre as coisas foram assim, mas é fato que ao longo do último século as salas de concertos e as casas de ópera ganharam ares de santuário, e sua música foi convertida em liturgia onde os hereges são castigados com sulfurosos "shiiiu!" quando batem palmas no lugar errado.

Aqui e acolá alguns músicos procuraram ao longo de suas carreiras dessacralizar este ambiente, salpicando suas apresentações e vidas com atitudes entendidas como "irreverentes". Mas entenda-se: dessacralizar não significa profanar, mas conferir à música aquilo que lhe é própria. Nem mais, nem menos. E por irreverência entenda-se não um gracejo gratuito, mas sim a maneira de fazer e dizer as coisas de forma simples, direta, por vezes inovadora e (por que não?) divertida.

Pois bem, nos últimos dias dois grandes irreverentes da música se foram. No dia 18 deste mês o compositor argentino Mauricio Kagel faleceu em Colônia (Alemanha), país onde estava radicado desde a década de 1950. E na madrugada do último domingo foi a vez do maestro Flavio Florence, diretor da Orquestra Sinfônica de Santo André, após um longa batalha contra o câncer.

Mas, afinal, o que há em comum entre duas pessoas tão diferentes, unidas apenas pelo fato de ambos serem músicos e sul-americanos? Irreverência! Da boa, da saudável, da sempre necessária e da que sempre precisamos cotidianamente.

Kagel notabilizou-se pela irreverência de sua obra num ambiente dominado pela sisudez, isto é, as vanguardas musicais do pós II Guerra Mundial e os cursos de Darmstadt. Kagel nunca cedeu à doutrinação estética vigente, estabelecendo uma poética artística própria, freqüentemente designada pelo insuficiente rótulo de teatro musical. Sua irreverência frente aos grandes ícones da história da música fez com que, não raro, sua obra fosse chamada de iconoclasta, tal como seu documentário musical Ludwig van, a propósito do bicentenário de Beethoven. Mas Kagel nunca pichou a obra de Beethoven ou de qualquer outro compositor. Ao contrário, de certa forma sua intenção era justamente protegê-la dos "falsos evangelistas" e daqueles que pregavam em nome dos mestres do passado apenas por usufruto comercial.

Mas irreverente que se preze sabe rir de si próprio, coisa que Kagel também não deixou de fazer: quando lhe encomendaram uma peça para comemorar seus cinqüenta anos de vida, ele não titubeou em batizá-la de "Finale", algo que ele mesmo considerou como uma piada um tanto macabra para um aniversário. Afinal, que outra piada poderia ser feita numa ocasião como esta?

Por sua vez, o regente Flavio Florence... ops! Eu falei "regente"? Então, aceite minhas desculpas, maestro. Isso porque em um de seus últimos artigos na coluna "Semibreves", que publicava na Revista CONCERTO, Florence fez questão de dissecar este termo e sua relação com nosso provincianismo musical (afinal, quem rege é rei, e o "regente" não é rei de nada). Aliás, em sua coluna o maestro atingiu a difícil tarefa de ensinar coisas por vezes bastantes complexas sem aprisionar o leitor no linguajar técnico e jamais perdendo o bom-humor, algo que sempre procurou fazer no palco. Mesmo quando em um de seus artigos abordou sua terrível doença ("Dor", de dezembro de 2006), o maestro tratou a situação de forma irônica, algo que somente os espíritos fortes são capazes.

Neste mesmo texto, comentando a obra "Morte e Transfiguração", de Richard Strauss, o maestro teceu a seguinte frase, que neste momento de perda de pessoas de atitude tão raras no ambiente musical, serve como alento e esperança aos que ficam:

"A morte vem não como um castigo cruel, mas como um momento sublime de transformação, em que a música ganha contornos melódicos de rara beleza".