"Salomé" é grande realização do Festival de Ópera do Theatro da Paz

por Nelson Rubens Kunze 26/11/2012

Não são questões “simples” as que a ópera Salomé, de Richard Strauss, aborda. A peça de Oscar Wilde (1854-1900), na qual o libreto se baseia, trata da redenção em meio às mais intensas experiências humanas: desejo, morte, ódio, vingança, adultério, amor... É um assunto incômodo, que exige certa dose de coragem, por revolver as nossas mais íntimas questões existenciais. Assim, não é por acaso que a apresentação de Salomé, no início do século passado, esteve associada a histórias de censura, proibição e a polêmicas – como também a ópera, de Richard Strauss (1864-1949), estreada em Dresden, na Alemanha, em 1905. Em um ato de 1 hora e 40 minutos ininterruptos de música, a obra desemboca em um turbilhão de êxtase pelo desejo consumado na morte. Salomé também é uma grande criação por tematizar esses mistérios da psique humana.

 

Por conta da complexidade do argumento e da partitura musical – para grande orquestra, na típica escrita do Romantismo straussiano –, confesso que recebi com certo ceticismo a notícia de que o Festival de Ópera do Theatro da Paz pretendia montar o título. Tanto maior foi o meu entusiasmo ao assistir ao bom resultado que a estreia do último sábado, dia 24 de novembro, alcançou.


Cena da ópera Salomé, no Theatro da Paz, em Belém do Pará [foto: divulgação]

Com um significativo reforço de músicos convidados, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, sob direção do regente titular Miguel Campos Neto, tocou a complexa e densa partitura com muita convicção, proporcionando belos momentos orquestrais. Campos Neto soube conduzir o espetáculo com propriedade e sempre atento ao discurso dramático.

Igualmente convincente como um todo foi o elenco, que apresentou boas surpresas, como a mezzo soprano Josy Santos, que fez a Pajem. O tenor Giovanni Tristacci cantou Nabarroth, a mezzo Andreia Souza interpretou a rainha Herodíade e Paulo Queiroz demonstrou bom desempenho como Herodes. Rodrigo Esteves, que interpretou Jokanaan, tem uma voz privilegiada e foi, sem dúvida, um destaque na noite.

Mas espetacular foi a performance da soprano holandesa Annemarie Kremer como princesa Salomé. Após um início um pouco tímido, a artista logrou desenvolver paulatinamente sua força dramática. Em seguida à ótima dança dos sete véus (com direito a nu frontal!), Kremer encarou o derradeiro ápice da obra – a consumação de seu desejo com um beijo na boca da cabeça decepada de Jokanaan – com uma entrega rara de se ver no palco lírico (linda iluminação de firmamento estrelado – acho que vou me lembrar desta cena por um bom tempo...).


Cena da ópera Salomé, no Theatro da Paz, em Belém do Pará [foto: divulgação]

Ficou para o fim falar da encenação funcional e competente, que sem dúvida concorreu para o sucesso da montagem (direção cênica de Mauro Wrona). Uma grande estrutura qual uma concha ovalada, que continha as escadarias do palácio, proporcionou uma visão impactante ao mesmo tempo em que garantiu boas soluções para a movimentação dos atores (cenografia de Duda Arruk). Esse cenário reforçou a sensação de cerceamento, potencializando a solidão e desesperança dos atores. Os figurinos de época foram de Elena Toscano. Destaque ainda para o ótimo trabalho de iluminação realizado por Caetano Vilela, que mais que “iluminar” a cena enriquece, com suas propostas visuais, o desenrolar da narrativa. A supervisão artística foi de Gilberto Chaves, também coordenador geral do festival.

Creio que uma das razões para o bom resultado da montagem tenha sido o equilíbrio e a perfeita conjunção da realização musical com a cênica. Os diversos elementos operaram em um mesmo nível, gerando um todo orgânico e consistente.

Cena da ópera Salomé, no Theatro da Paz, em Belém do Pará [foto: divulgação]

Sem dúvida, esta produção de Salomé do Festival de Ópera do Theatro da Paz alça Belém a um novo patamar artístico. E se a programação desta 11ª edição do festival foi ambiciosa – antes ainda teve Cavalleria rusticana e João e Maria –, ano que vem tem mais: informalmente já se fala no Navio fantasma e em Trovatore para comemorar os bicentenários de Wagner e Verdi, além do Elixir do amor, de Donizetti.

Uma proposta justa para servir a esta cidade musical e a um dos teatros mais belos e tradicionais do país, que é o centenário Theatro da Paz.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém e assistiu à ópera Salomé a convite da Secretaria de Cultura do Estado do Pará.]