“Sansão e Dalila” ou o “Sumo-Sacerdote de Dagon”?

Tem umas coisas do meio musical brasileiro que, no início de carreira, eu achava que o tempo me faria entender. 15 anos mais tarde, elas continuam representando para mim enigmas indevassáveis.

Por exemplo: qual é a política de importação de cantores por aqui? Não importa o ano, a cidade, o teatro, o regente, o encenador, o empresário: vira e mexe trazem para cá uns negócios de dar medo...

Não se trata, agora, de sair defendendo uma política xenófoba, à la Policarpo Quaresma, de dizer que só o verde-amarelo presta. Na montagem de um elenco, o que tem que se levar em conta é o talento, e não o passaporte. Mesmo porque a mediocridade não respeita fronteiras, e aqui também tem muita gente ruim.

E têm aparecido por aqui, de quando em vez, umas vozes importadas que realmente fazem a diferença. Para ficar só em exemplos deste ano: em Belo Horizonte, na montagem de Pelléas et Melisande, de Debussy, em junho, o francês Jean-Philippe Lafont foi um Golaud deslumbrante, de referência. Aqui em São Paulo, com a Osesp, a também francesa Mireille Delunsch fez uma Voz Humana, de Poulenc, absolutamente inesquecível; e a mesma orquestra teve uma Salomé, de Richard Strauss, com um elenco multinacional de primeiríssima linha.

Mas a minha inquietação foi despertada por essa montagem de Sansão e Dalila que está em cartaz no Municipal de São Paulo. Sim, o Municipal tem privilegiado os talentos locais, e restringido as importações ao mínimo necessário. Sim, é muito legal ver o Municipal com nove óperas no ano. Sim, é bacana ver a diversidade estilística contemplada, do barroco ao século XX. Sim, é saudável que, 67 anos depois, finalmente o teatro faça uma montagem com cenários e figurinos da ópera de Saint-Saëns.

Mas, mesmo levando em conta os apertos orçamentários e a crise financeira, não dava para ter trazido uns cantores melhores? O currículo do Sansão, o tenor britânico Richard Berkeley-Steele, impressiona: traz papéis exigentíssimos (Lohengrin, Siegfried, Tannhäuser), casas de ópera de relevo (Metropolitan de Nova York, Liceu de Barcelona) e aulas com o mítico Ettore Campogalliani, professor de Luciano Pavarotti e Mirella Freni.

Mas, quando abre a boca... Jesus! O vibrato é muito largo, e os agudos sofrem. Sofrem tanto que, na estréia (no sábado, 22/11), a voz até quebrou na cena final. Sofre ele, sofre a partitura, e, é claro, sofre o público.

Da argentina Cecilia Diaz, também dona de um currículo respeitável, pode-se dizer que, tecnicamente, está em nível superior ao parceiro. O que não faz dela, contudo, uma Dalila convincente. A voz, vez por outra, deixava-se encobrir pela orquestra, e não parecia considerar fraseado uma prioridade...

Ah, sim, justiça seja feita: o barítono Leonardo Neiva estava magnífico como o supremo sacerdote, com uma vocalidade robusta, e profundo senso de estilo. Só, que, infelizmente, a ópera não se chama “Sumo-Sacerdote de Dagon”, e, sim, “Sansão e Dalila”. Se o Sansão e a Dalila não funcionam, daí fica difícil de gostar.

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