Saudades de Almeida Prado

2010 foi um ano doído, cheio de perdas muito sentidas. Uma que já foi bastante noticiada, mas da qual eu gostaria de falar um pouco mais, era a do querido compositor Almeida Prado.

 

Todo mundo que convivia com o Almeida sabia que sua saúde não era das melhores, por conta da diebete que o acometia desde 1997. Ele quase  não enxergava direito, e dá vontade de usar o termo “milagre” para classificar as grandes partituras orquestrais que compôs com o auxílio de lupa, em pentagramas enormes, similares a plantas de engenharia, como as Variações sinfônicas, para o Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, o concerto para piano e orquestra Gravuras sonoras a D. João VI, para o bicentenário da chegada da corte dos Bragança ao Rio de Janeiro, e a música para o filme silencioso Études sur Paris, de André Sauvage, para a Osesp.

Mesmo assim, recebi chocado a notícia de seu falecimento, em 21 de novembro último. Almeida estava tão ativo e vibrante nos últimos tempos que não dava para entender que ele simplesmente se fora, e que não o teríamos mais conosco.

Já está fazendo muita falta sua prosa carinhosa e bem-humorada, rica em anedotas picantes e divertidíssimas. Uma prosa que ele compartilhou generosamente não apenas com amigos e colegas, mas também com os alunos da Unicamp e dos vários cursos livres que ministrou, bem como os ouvintes do programa Kaleidoscópio, da Cultura FM.

Do criador eclético e multifacetado de mais de 450 obras muito se escreveu, e eu não queria repisar o que saiu por aí. Logo depois da morte do Almeida, o jornalista Clóvis Marques enviou-me uma pergunta: que obra, característica composicional ou estilística eu destacaria como resumindo bem, do seu ponto de vista, o gênio ou a contribuição essencial de Almeida Prado como compositor? 

Parada dura. Porque, em um corpus tão vasto, rico e variado como o de Almeida Prado, é difícil escolher uma obra. Enfim, embora eu seja fã de grandes partituras orquestrais como a Sinfonia dos Orixás, acho que a contribuição mais relevante do compositor para a literatura brasileira de concerto reside em sua produção para o piano, instrumento que ele dominava como um virtuose. Almeida Prado me parece um dos compositores brasileiros que mais dominaram o piano, no nível de, digamos, Nazareth e Mignone. E. nessa área, impossível não destacar as Cartas celestes nº 1 - cuja descoberta, anos atrás, teve para mim o caráter de autêntica epifania, como apenas as verdadeiras obras-primas da música podem propiciar. Fiquei deslumbrado com aquele idioma arrojado, despido de concessões ou "macumba para turista", com aquela exploração extremamente original de efeitos timbrísticos e harmônicos, de complexidades rítmicas e contrastes dinâmicos, de caráter sugestivo e assertivo. E, ao mesmo tempo, com a maturidade do pensamento musical e a solidez da técnica. Almeida Prado era um mago dos sons, que sabia apelar ao intelecto e inebriar os sentidos.

Foi por isso tudo que o júri da premiação de música erudita da APCA, do qual fiz parte, resolveu dar por unanimidade o grande prêmio da crítica de 2010 a ele, in memoriam. Uma pequena homenagem diante de méritos tão avassaladores.