She’s coming

por Leonardo Martinelli 30/08/2011

Talvez sem querer, Marin Alsop acabou por se tornar uma das principais atrações desta temporada clássica brasileira. A razão é clara: ano que vem ela assume oficialmente a regência da Osesp, sucedendo Yan Pascal Tortelier em seu mandato tampão. Em junho passado ela realizou com a orquestra paulista as primeiras apresentações após o anúncio oficial de sua indicação, e tal como noticiado na matéria de capa da edição de agosto da Revista CONCERTO, acompanhamos com interesse como a “maestra”, seus futuros músicos e seu público reagiram neste início de noivado.

 

Semana passada Alsop voltou a reger a Osesp, agora com um repertório diferenciado (anteriormente havia regido apenas Mahler), e a expectativa que pairava no ar era de como este futuro casamento poderia reagir. Tanto para quem foi à Sala São Paulo quanto para quem conferiu a histórica transmissão ao vivo da récita de sábado pela internet, percebeu que há muitas coisas que jogam a favor dessas bodas musicais.


Marin Alsop [foto: divulgação]

Na primeira parte do concerto, Alsop conduziu muito bem a Osesp para acompanhar o violinista francês Renaud Capuçon no Concerto Op. 35 de Erich Korngold. Em geral, solistas “stand up” tendem a sofrer no palco da Sala São Paulo, onde facilmente solos de violinos, sopros e cantores são engolidos pela massa orquestral, que os devora por detrás. Alsop soube achar o equilíbrio certo entre as diferentes forças em jogo, fazendo do palco terreno fértil para a empolgante arte de Capuçon. Detentor de uma sonoridade vibrante, Capuçon soube aproveitar a escrita peculiar de Korngold, com suas notas longas no agudo como precioso veículo de expressão. Seu bis, uma versão da célebre melodia do bailado de Orfeu e Eurídice, de Gluck, foi um verdadeiro tratado da arte dos vibratos.

Se o papel desempenhado por Alsop para garantir uma bela execução do Concerto foi por si admirável, com os quatro movimentos da Sinfonia nº 5 de Prokofiev a regente norte-americana mostrou porque é uma pessoa a quem se pode confiar a guarda de uma orquestra de excelência.

Regendo de cor, Alsop atuou com competência no balanço da torrente de ideias musicais que brotam dos diversos naipes da orquestra, conduzindo a orquestra de forma decisiva e inspirada no mosaico sonoro que caracteriza a escrita de Prokofiev nesta obra. Com confiança, soube levar a Osesp nas nuances de tempos e foi generosa em deixar brilhar os solos individuais que brotam da partitura, com destaque para a bela atuação do clarinetista Sergio Burgani.

Com a sua futura orquestra, Alsop irá gravar nos próximos anos a integral das sinfonias de Prokofiev, e pelo que foi apresentado nesta última semana de agosto, o ciclo tem tudo para se tornar uma nova referência. Apertem os cintos, que a maestra está chegando...