Tudo pelo público

por João Marcos Coelho 15/02/2016

Todo mundo adora citar o título de um artigo do compositor norte-americano Milton Babbitt (1916-2011) escrito em 1958 para a revista High Fidelity: Who cares if you listen?, literalmente: quem se importa se você está ouvindo. Babbitt tinha feito outro título, O compositor como especialista, e ficou muito irritado com a sacada do editor da revista. Ironicamente, ficou famoso mundialmente por causa de um título errado. Porque – e até Babbitt estava careca de saber – qualquer ser humano que escreva uma música, toque um instrumento ou comande, com as mãos ou uma batuta, um grupo ou orquestra, quer antes de tudo ser ouvido. Existe alguém que não daria a alma ao diabo para conseguir plateia? Para público externo, a resposta-padrão é sempre “Jamais eu faria isso”. Na prática, sabemos, isso acontece demais no dia a dia.

 


Cena de O dançarino do deserto, de Richard Raymonds, sobre Afshin Ghaffarian [imagem: divulgação]

A questão é espinhosa e complexa. Mas me veio à mente quando assisti, dias atrás, na TV a cabo, o filme Desert Dancer (2014), traduzido como O dançarino do deserto. 2009, Irã: o jovem Afshin Ghaffarian desafia as leis dos aiatolás montando uma companhia de dança clandestina – prepara com seu grupo uma coreografia, depois de assistir a performances variadíssimas, de Pina Bausch a Gene Kelly, pela web. E estreia sua obra em pleno deserto, a 100 quilômetros de Teerã. O público feito de amigos corajosos lota uma velhíssima van e assiste sentado na areia escaldante do deserto. A história é verídica. A coreografia é literal, simplória. Mas o tempero político de resistência leva Afshin – depois de sofrer um bocado nas mãos dos agentes do governo iraniano – para Paris, onde os franceses o incensam, dão-lhe bolsa de estudos e abrem-lhe todos os espaços. A música do britânico Benjamin, de ilustre sobrenome Wallfisch (família que tem muitos músicos respeitados) é interessante.

O que espanta, nos dois casos, é que Babbitt e Afshin ficaram famosos por motivos tortos. O primeiro, coitado, por um artigo que poucos se deram ao trabalho de ler, por causa de um título alheio que é um mote jornalístico venenoso e distorcido. O segundo também não queria, mas beneficiou-se do charme dos resistentes às obscuras ditaduras muçulmanas que pululam no Oriente Médio.

Será que, para chegar ao público, ser ouvido, os artistas precisam necessariamente desnaturar, violentar seus mais profundos dogmas? Ou, de outro modo: para chegar ao público, devem renunciar a suas posições, privilegiando – direta ou indiretamente – o marketing?

Pra pensar neste dificílimo início de 2016.

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