Uma tarde com Ida Miccolis

por João Luiz Sampaio 08/06/2015

Conheci Ida Miccolis em uma tarde de janeiro de 2009. Cheguei a sua casa na Barra da Tijuca, no Rio, adiantado. Pudera. Na noite anterior, passei horas ouvindo trechos de gravações suas, amealhadas em acervos particulares. Tosca, Il trovatore, Aida, Lo schiavo, Fosca. A cada ópera, a cada personagem, crescia o fascínio por aquela voz. E a ansiedade por poder conversar sobre ela a respeito de um talento e trajetória excepcionais, vividos com intensidade nos principais palcos brasileiros.

 

A memória daquele dia voltou à mente com a notícia de sua morte, na segunda-feira (dia 1º de junho). Ela, que foi uma das mais destacadas cantoras líricas do país na segunda metade do século XX, estava com 95 anos e foi velada, com homenagem de colegas, admiradores e cantores do coro, no Salão Assírio do Theatro Municipal do Rio.

Era, em muitos sentidos, a sua casa.

Ida Miccolis fez parte de uma geração de excelência da ópera brasileira, que ocupou nossos principais palcos nos anos 1950, 1960 e 1970, divindo espaço com as companhias europeias que por aqui passavam. Alfredo Colosimo, Neyde Thomas, Niza de Castro Tank, Maria Henriques, Gloria Queiroz, Diva Pieranti, Paulo Fortes – esses são apenas alguns do nomes desse grupo, que começou junto e, com algumas exceções, perdeu espaço quando, nos anos 1970, a lógica de produção de teatros como os Municipais de São Paulo e Rio começou a mudar.

Naquela tarde, quem me recebeu foi a filha de Ida Miccolis, que havia separado sobre a mesa um extenso material – recortes, programas, fotos – que pudesse auxiliar na pesquisa. Mas bastou que a soprano entrasse na sala para que as atenções se voltassem a ela. E não foi difícil reconhecer naquela senhora elegante, impecavelmente maquiada, o mesmo olhar de sua foto mais famosa. Registrada nos anos 1960, a pose, de perfil, com os cabelos penteados para trás, evocava Maria Callas. Mas os olhos negros reivindicavam para si um mundo próprio.

A entrevista não foi longa. “Eu estou afastada há tanto tempo desse mundo, sobraram algumas poucas memórias”, ela me disse. Mas falou com muito carinho de Carlos Gomes. Elogiou a ária de Lo schiavo, O ciel di Parahyba, cantada tantas vezes, ainda que tenha concordado comigo quando chamei atenção para a intensidade e força dramática do papel de Fosca, que ela interpretou com Costanzo Mascitti e Agnes Ayres, em São Paulo. “Quale orribile peccato”, ela disse, baixinho. Em seguida, uma pausa, como se lembrasse de algo. “Sim, sim, que ária maravilhosa. E muito difícil.”

Mulheres fortes a agradavam. Foi assim com Tosca, que cantou com o tenor italiano Carlo Bergonzi no Theatro Municipal do Rio. Foi assim com Leonora, de Il trovatore, no mesmo palco, ao lado de um elenco de sonho: Zaccaria Marques, Lourival Braga e a Azucena de Maria Henriques. Esses nomes não reaparecem aqui por acaso: ela própria, a todo instante, fazia questão de lembrar os “grandes colegas” com quem participou de temporadas de “uma época que não volta mais”.

Ao fim da conversa, Ida Miccolis me convidou para ir até a varanda do apartamento, da qual era possível observar o mar, a praia e, do outro lado da paisagem, a montanha. “Essa vista é muito especial”, ela me disse. “Sabe por quê? Veja como o mar respeita a areia, como a montanha respeita o mar. Cada um tem o seu espaço, um não invade o terreno do outro. É harmônico. E a harmonia só existe quando cada um conhece o seu limite. Como na natureza, o ser humano também tem os seus.” Tanto tempo depois, ao escrever essas linhas, me lembro do que pensei enquanto ia embora. “O ser humano tem limites, mas a arte talvez seja capaz de ampliá-los constantemente.” No palco, foi o que Ida Miccolis fez. Como poucos.

 


 

Ouça Ida Miccolis cantando O ciel di Parahyba, de Lo schiavo, de Carlos Gomes:

[Ouça também]
Ida Miccolis em Quale orribile peccato, da Fosca, de Carlos Gomes
Ida Miccolis e Carlo Bergonzi na Tosca, de Puccini
Ida Miccolis em D'amor sull'ali rosee, de Il trovatore, de Verdi

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