De palmeiras e pinheirinhos nórdicos

por João Marcos Coelho 24/03/2017

Um lançamento recentíssimo comprova a velha máxima de que quando se aliam talento e competência, sustentados por uma estrutura financeira compatível, o resultado é sempre excepcional. Provoca justo espanto – pela qualidade artística e escolha de repertório – o CD recém-lançado pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais pelo selo Sesc.

Estamos diante de um autêntico “case” virtuoso num domínio em que é muito difícil construir projetos com começo, meio e fim – ou seja, que possuam coerência e se atenham aos objetivos a que se propuseram no ponto de partida, além de serem oficialmente sustentados por governantes com sensibilidade para as questões culturais.

O caso da Filarmônica de Minas Gerais é ímpar. Ela nasceu em 2008, num concerto com a Nona sinfonia em Belo Horizonte, já capitaneado por seu atual maestro titular e diretor artístico Fábio Mechetti. Ganhou uma moderníssima sala própria de concertos. E, nestes nove anos, legitimou-se de modo profundo junto à comunidade na qual atua. Não ouvi nada – ainda bem! – sobre cortes no orçamento da sua Temporada 2017. Ela mantém suas cinco séries de concertos e a saudável filosofia básica de fortalecer cada vez mais as raízes no solo que a viu nascer.

 

Orquestra profissional, nem por isso pauta-se pela busca frenética de legitimação nos mercados europeu e norte-americano. Quer ser mesmo, como Alejo Carpentier dizia de Villa-Lobos, uma palmeira bem brasileira, em vez de pinheirinho nórdico.

É exemplar seu CD Guarnieri-Nepomuceno. Primeiro, pela escolha do repertório. A ideia central era gravar o Concertino e o Choro de Camargo Guarnieri com Cristina Ortiz. Isso dá menos de 40 minutos, pouco para um CD. E, na hora de “completar o tempo”, fez-se a luz. Uma obra de Nepomuceno totalmente inesperada, as deliciosas Seis Valsas Humorísticas op. 22, que ele escreveu em 1902.

Vale a citação completa do que Mário de Andrade, citado por Flávia Toni em seu texto no encarte, escreveu no “Diário Nacional” após assistir a um concerto em 4 de maio de 1930, com a Sociedade de Concertos Sinfônicos e o pianista J. Otaviano: “É indiscutível que quando escuto qualquer coisa de Nepomuceno, me sinto sempre animado por intensa simpatia. O que talvez me faça aumentar um bocado o valor das obras dele, não sei... Assim, por exemplo, ontem era tão humorada a minha expectativa por essas Valsas Humorísticas, que pelo menos pude gozar todas as qualidades que elas têm: aquela nitidez melódica franca e sem vulgaridade, tão comum nas obras de Nepomuceno; a notável variedade rítmica; o a propósito de certas evocações humorísticas de temas alheios (João Strauss, Chopin); a riqueza de cores orquestrais”.

“João Strauss” é muito saboroso, puro Mário de Andrade. Mas o que importa aqui é a coragem de gravar peças que quase se pode chamar de circunstanciais. Afinal, são brincadeira pura de Nepomuceno com a valsa, com direito a evocações de ícones europeus. Mechetti entende isso com perfeição, e faz a orquestra tocar com alegria, mostrar todas as suas cores e vitalidade rítmica.

Outro detalhe importante desta gravação é o alto nível técnico e artístico da solista. Cristina Ortiz é daquelas pianistas que não brincam em serviço. Aplica-se a fundo em tudo que faz. Suas leituras do Concertino e do Choro, acompanhadas por uma Filarmônica de Minas Gerais irretocável, assumem o status de referência daqui para a frente.

Estas seis valsas de Nepomuceno, porém, são música lúdica, divertida, na melhor tradição das danças húngaras de Brahms ou as eslavas de Dvorák. Um buquê de seis peças que bem podem ser tocadas isoladamente como extras em concertos de nossas orquestras. Porque, cá entre nós, não ficam nada a dever às danças de Brahms e Dvorák, bis preferenciais das orquestras europeias.

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