Energia no Theatro São Pedro: Beethoven, Mahler e Schumann

por João Luiz Sampaio 19/07/2018

A Orquestra do Theatro São Pedro apresentou no último fim de semana, sob regência da maestrina Ligia Amadio, um programa dedicado à música do século XIX, partindo da transição do classicismo para o romantismo (com Beethoven) e chegando aos estertores do período (com Mahler), passando por um dos principais momentos da sinfonia romântica (com Schumann).
 
A Sinfonia nº 3 é, de certa forma, uma peça solar em meio a um momento de sombras. Em 1844, após anos difíceis, marcados por crises nervosas, Schumann mudou-se para Dresden, com um novo emprego e a expectativa de novos horizontes criativos que, no entanto, só apareceriam seis anos mais tarde, após nova mudança, agora para Düsseldorf. Lá, a paisagem marcada pela onipresença do Rio Reno inspiraria o autor a compor esta sinfonia (a Renana) e um espírito de otimismo o levaria a escrever também outra de suas obras mais emblemáticas, o Concerto para violoncelo.

A Orquestra do Theatro São Pedro com Ligia Amadio [Divulgação / Sergio Ferreira]
A Orquestra do Theatro São Pedro com Ligia Amadio [Divulgação / Sergio Ferreira]

Se o Reno inspira o tom alegre da Sinfonia nº 3, é também o rio em que, dois anos mais tarde, o compositor tentaria o suicídio. Mas na leitura de Ligia Amadio, a Renana não antecipa a tragédia: é pura alegria e energia – em um arco que ela e os músicos da orquestra conseguem manter desde o primeiro e envolvente tema até o movimento final, com destaque para o quarto tempo, no qual tom solene (mas nunca melancólico) evoca uma visita à Catedral de Colônia.
 
A primeira parte do programa, por sua vez, ofereceu aproximações interessantes. Beethoven escreveu a Abertura Coriolano inspirado na história do general romano que, traído pelos seus pares, investe contra a cidade e, entre família e as escolhas que fez, opta pelo suicídio como único caminho possível e digno. Da mesma forma, ao fim do ciclo Rückert Lieder, na canção "Ich bin der welt", o poeta também resolve se afastar, ainda que de forma simbólica, do mundo.
 
Beethoven e Mahler são frutos de épocas diferentes, que ajudaram por sinal a definir. Mas aqui eles se aproximam em uma leitura poética da maestrina: na tensão dos momentos finais da abertura, assim como no modo como a música desaparece aos poucos ao fim do Mahler, a morte ou o abandono do mundo não soam como libertação, mas, antes, como uma realidade a se enfrentar com um desespero resignado.
 
No Mahler, Amadio teve ao seu lado a mezzo soprano Ana Lucia Benedetti, que ofereceu uma leitura repleta de nuances – o timbre escuro se transforma com facilidade nas passagens mais brilhantes, e o texto vai sendo colorido, canção a canção, com vigor quase operístico, em especial em "À meia-noite", que no meio do ciclo já antecipa o desfecho marcado pelo desapego do mundo, encarnado pela solista de forma tocante.