Filarmônica de Minas Gerais faz belo concerto em Belo Horizonte

por Nelson Rubens Kunze 28/04/2019

Assisti em Belo Horizonte, na quinta-feira, dia 25 de abril, ao concerto da excelente Filarmônica de Minas Gerais. Desta vez, a orquestra foi dirigida pelo maestro italiano convidado Alessandro Crudele, que soube extrair bom rendimento do conjunto. Como de costume, a Filarmônica tocou com brilho. 

Diversificado e interessante, o programa teve duas obras de Ottorino Respighi (a famosa Fontes de Roma e as Impressões brasileiras), a Pavana para uma infanta defunta, de Ravel, a Dança, de Debussy, e o Concerto para piano nº 1, de Claudio Santoro, com solos do pianista Aleyson Scopel.

Foi uma bela noitada de música. São lindas e criativas as orquestrações e combinações tímbricas do italiano Respighi (1879-1936), e soaram bem e equilibradas na Sala Minas Gerais. As suas Fontes de Roma, escritas em 1916, pertencem à trilogia romana, formada ainda pelos Pinheiros de Roma e pelas Festas romanas, que são as suas obras mais conhecidas.

Respighi gostava do Brasil e escreveu as Impressões brasileiras inspirado por uma viagem ao país, em 1927, em que regeu concertos no Rio de Janeiro – conforme a nota de programa, os concertos “foram sucesso de público e crítica, embora a orquestra estivesse uma lástima”. Um ano mais tarde, em 1928, as Impressões brasileiras foram estreada no Municipal de São Paulo sob direção do próprio compositor (não consta nas notas do programa se a orquestra paulistana também estaria uma lástima...). São três movimentos, Noite tropical, Butantã e Canção e dança. Bem ao estilo de Respighi, é música que mescla romantismo e impressionismo, vazada em vocabulário tonal. Apesar de se reconhecer motivos melódicos brasileiros, a obra não tem apelo exótico. Com exceção do último movimento, as Impressões brasileiras têm um caráter misterioso e por vezes sombrio.

Fachada do complexo da Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte [foto: divulgação]
Fachada do complexo da Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte [foto: Revista CONCERTO]

Mas o especial da noite foi o Concerto para piano nº 1 de Claudio Santoro, a começar pelo ótimo solista, o pianista Aleyson Scopel. De sólida técnica, Scopel sabe equilibrar sua natural e exuberante musicalidade com a dose certa de sobriedade. O concerto foi escrito em 1952-53, quando Santoro, já compositor maduro, se volta para uma linguagem mais nacionalista, o que resulta em uma música no todo bastante acessível e fluente. Passagens concertantes se alternam com solos do piano, como na introdução do segundo movimento. A obra tem criativas e exigentes construções orquestrais, que demandam muito do conjunto. E a Filarmônica, com Aleyson e Crudelle, fez uma bela apresentação, que logrou extrair todas as riquezas da partitura.

Quase 100 anos depois da experiência de Respighi com as lastimáveis orquestras brasileiras, ainda são poucas as boas sinfônicas em nosso país. Praticamente todas elas têm em comum a luta diária pela sobrevivência, a defesa da dignidade do músico e o trabalho duro por um aprimoramento técnico e artístico. Entre elas, creio que apenas duas, a Osesp e justamente a Filarmônica de Minas Gerais, alcançaram uma organização e institucionalidade que permitem comparações ou referências internacionais. Não por acaso, ambas são parcerias público-privadas, em que as orquestras, sustentadas pelo estado, são geridas por Organizações Sociais especializadas. Com qualidade artística e uma inédita relação custo-benefício, elas seguem paradigma para as orquestras sinfônicas no Brasil.

 

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