Ufa! O Theatro São Pedro não vai fechar

Por vezes, o melhor termômetro da gravidade de uma situação é nossa reação a ela. Só agora, no final de abril, com um terço do ano já transcorrido, foi anunciada a temporada do Theatro São Pedro em 2019. E a reação geral, em vez de indignação pelo atraso, é de alívio – por haver uma temporada, e pela própria continuidade das atividades da casa.

Pois quem frequenta o charmoso teatro centenário do bairro paulistano da Barra Funda sabe que, devido aos contínuos e sistemáticos cortes nas verbas culturais do governo do Estado de São Paulo, o São Pedro vem atuando sob uma incômoda e ameaçadora espada de Dâmocles. Não há exagero: falava-se, simplesmente, na extinção da orquestra do teatro (com a demissão de todos os seus músicos) e no cancelamento de todos os eventos lá agendados.

Alguém não familiarizado com a situação poderia se perguntar, muito legitimamente, se tal situação não se deveria a problemas de qualidade da programação do São Pedro. Mas não é o caso. Para não ir muito longe: em 2018, das três montagens de ópera indicadas como melhores do ano pela Revista CONCERTO, duas eram do São Pedro – Kátia Kabanová, de Janácek, e Sonho de uma noite de verão, de Britten (a vencedora do prêmio).

Abandonando os delírios megalomaníacos do passado, que queriam enfiar títulos gigantescos em seu palco pequeno e intimista, o São Pedro vinha apostando em óperas adequadas à sua infraestrutura, funcionando não como concorrente empobrecido e recalcado do Theatro Municipal e seus suntuosos blockbusters, e sim como um inteligente e enriquecedor complemento à programação operística da cidade.

Croqui digital do cenário de ‘O caso Makropulos’, de Janácek, que estreia em junho, sob direção de André Heller-Lopes [Divulgação]
Croqui digital do cenário de O caso Makropulos, de Janácek, que estreia em junho, sob direção de André Heller-Lopes [Divulgação]

Acabo de aprender pelo artigo de Jorge Coli publicado neste site que a montagem de La Clemenza di Tito, de Mozart, que estreou no São Pedro antes do anúncio oficial da temporada (seria uma ópera clandestina?), é a estreia paulistana dessa obra-prima mozartiana, dois séculos depois de sua primeira audição mundial. O resto da programação (que pode ser conferida em detalhes aqui) mantém ideias que deram certo no ano passado. Assim, a dupla André Heller-Lopes/Ira Levin, responsável pelo êxito de Kátia Kabanová, faz, em junho, outro Janácek: O Caso Makropoulos. E Valentina Peleggi, que dirigiu Il Matrimonio Segreto, de Cimarosa, rege, em agosto, mais um título bufo do bel canto: L'italiana in Algeri, de Rossini.

A grande ousadia está no terreno da ópera contemporânea. Em setembro, o São Pedro estreia Ritos de Perpassagem, nova e subversiva (em todas as acepções da palavra) criação de ninguém menos do que Flo Menezes – o mago da música eletroacústica em São Paulo. Em dezembro, é a vez de um orientando de Menezes, Leonardo Martinelli, estrear, com as forças da Academia de Ópera do São Pedro, O peru de Natal, com libreto de Jorge Coli, que, no palco deste teatro, já viu cantados seus textos para O menino e a liberdade (2013), de Ronaldo Miranda, e O espelho (2017), de Jorge Antunes. De Menezes e Martinelli, não devemos esperar um olhar nostálgico para a forma operística, e sim estimulantes reflexões a respeito do que é possível fazer em teatro musical no terceiro milênio.

2019, por sinal, pode ser um ano dourado para Martinelli. O anúncio oficial ainda não foi feito (pois as temporadas que começam antes de serem anunciadas parecem a nova tendência musical paulistana), mas circulam rumores insistentes de que, em novembro, deve ocorrer, no Theatro Municipal de São Paulo, a primeira audição de Navalha na carne, sua adaptação operística da obra-prima de Plínio Marcos (1935-1999). Ambientada em um quarto de bordel, e tendo como protagonistas uma prostituta, um gigolô e um homossexual, o texto de Plínio Marcos estreou em 1967, parecendo, contudo, meio século mais tarde, mais provocador e atual do que nunca. Mal posso esperar para ouvir sua materialização sonora pela imaginação fértil e original de Martinelli!

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