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Cyro Pereira se foi (25/6/2011)
Por Fábio Prado

No dia 9 de junho de 2011 faleceu Cyro Pereira, maestro, arranjador e compositor, vitima de câncer. Nos últimos momentos de sua batalha, estava rodeado pelo carinho familiar, especialmente de sua querida esposa, Ester de Souza, que deixou a carreira de cantora para se dedicar ao cuidado dos filhos Ciro, Luciana e Carlos.

Compositor residente da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, tem como uma das referências obrigatórias da sua biografia ter sido o maestro dos famosos festivais da TV Record nos anos 60.

Natural de Rio Grande, último porto ao sul do país, Cyro nasceu em 14 de agosto de 1929.  Em 1936, começou a estudar no Liceu Salesiano de Artes e Oficios Leão XIII, que oferecia diversos cursos profissionalizantes, inclusive o de música. Naquela época, ouvia constantemente a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e algumas rádios argentinas e uruguaias (através das ondas curtas). Ele ficava maravilhado com o que escutava, especialmente com as orquestrações de Radamés Gnattali. Muito jovem, construiu seu sonho: 'Quero ser orquestrador'.

No começo dos anos 50 veio para São Paulo e aqui se instalou para nunca mais sair. Logo foi trabalhar na Rádio Record, onde encontrou seu principal mestre: Gabriel Migliori que, embora nunca tenha lhe dado aula, sempre esteve ao seu lado para dizer o que funcionava e como resolver situações musicais difíceis. Lá, seu sonho começou a se realizar, ou seja, se tornou um orquestrador/arranjador. Aqui cabe mais um esclarecimento: Cyro sempre preferiu a palavra orquestração, pois dizia que arranjo sempre soava como se alguém estivesse 'consertando' alguma coisa.

No inicio dos anos 60, começou a surgir sua segunda área de trabalho – a composição. Participou de um concurso da cidade de São Paulo para o qual compôs uma suíte com cinco movimentos. Sua Suíte Brasiliana recebeu o prêmio de menção honrosa. Esta peça faz parte do repertório da Jazz Sinfônica, sendo seu terceiro movimento, "Toada", uma de suas composições mais belas. Vieram muitas outras, como mais três Suítes Brasilianas e peças com uma cara mais erudita, como um Concerto para piano e orquestra (vencedor de um concurso da Academia Brasileira de Música e tema de dissertação de mestrado de Luciana S. Shimabuco) e um Concertino para violino e orquestra. Mas ele sempre se considerou como um músico popular que utiliza a orquestra como instrumento principal para sua expressão.

O tempo passou e em 1973 o departamento de música da Rádio Record desapareceu, fazendo a vida profissional mais difícil. Época de dar aulas, fazer 'bicos' e até tocar em cruzeiros marítimos. No começo dos anos 80, uma encomenda da Orquestra Sinfônica de Campinas abriu espaço para que Cyro pudesse enveredar por um novo caminho, o de construir suas Fantasias Orquestrais a partir de melodias de autores conhecidos ou de temas de um mesmo gênero. A primeira de todas é Jobimniana, seguindo-se Caymminiana, Aquarela de Sambas, O Fino do Choro 1, Suíte Sertaneja e muitas outras.

Em 1990, aconteceram dois fatos marcantes: foi convidado para dar aulas de orquestração na UNICAMP e se tornou um dos fundadores da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, para a qual escreveu cerca de duzentas peças, inclusive muitas outras Fantasias. Nesta orquestra, finalmente sentiu-se à vontade: 'Aqui posso fazer o que eu quiser', dizia ele. E isto era tão verdade que ele se tornou um dos pilares estéticos da orquestra. E para imortalizar seu nome, a direção artística da Jazz Sinfônica, na pessoa do maestro João Maurício Galindo, decidiu incluir seu nome na sua logomarca, com a inscrição: Maestro Cyro Pereira – Fundador.

Cyro Pereira foi dos últimos representantes de um momento muito importante da música brasileira, a chamada Época de Ouro do Rádio dos anos 1940 e 1950 – muitas de suas peças trazem soluções aprendidas naquele tempo. Deixou, como grande contribuição para os atuais e futuros orquestradores, sua técnica de equilíbrio sonoro praticamente perfeita, ou seja, suas partituras possuíam a rara qualidade de não precisar de ajustes por parte dos intérpretes. Sua obsessão era manter o interesse do ouvinte, conseguido por meio de mudanças freqüentes na 'cor' da música (alcançada por modulações, alterações harmônicas e de acompanhamento). Sua extensa produção, tanto de arranjos como de composições, assim como a produção de suas Fantasias orquestrais, são obras que atravessarão gerações. Este é seu legado.

Tive o privilégio de conviver intensamente com Cyro Pereira a partir de 1997, quando ingressei na Jazz Sinfônica. Logo dei um jeito de me aproximar: ele não dirigia carros e me ofereci para lhe dar carona após os ensaios, mesmo que minha casa ficasse em outra direção. Isso me deu a oportunidade de uma convivência mais próxima, além da chance de discutir sobre diversos assuntos, principalmente música. Ele era um homem bem-humorado, inteligente e muito bem informado.

Em 2009 defendi minha dissertação de mestrado sobre uma questão que, para mim, é central em sua obra. No meu trabalho 'O Carinhoso de Cyro Pereira: Arranjo ou Composição?', disponível no meu site http://www.maestrofabioprado.com.br/, proponho uma discussão sobre a natureza de suas Fantasias orquestrais. No meu entender, elas são composições.

Cyro Pereira era um gigante. Pelas suas características pessoais, sempre foi tímido e reservado, acabou não se projetando na mídia. Mas sua obra se encarregará de fazer isto por ele. Para todos aqueles que o conheceram, fica a saudade de um homem impar, que deixou sua marca na história da música brasileira. Para aqueles que não o conheceram, deixo o aviso: vocês ainda ouvirão muitas coisas dele e sobre ele.





Fábio Prado - é mestre pela ECA/USP e maestro da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo.

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