Da beleza do fraseado à leveza descontraída

por Jorge Coli 09/04/2024

Há certos concertos, mesmo com grandes orquestras internacionais, dos quais a gente sai dizendo: bom concerto, e pronto. Foi tudo bem-feito, bonito, mas não ficou marca na alma. Há outros nos quais, por alguma razão misteriosa, o espírito se assanha, sentindo-se transportado para um estado superior de sensibilidade e de inteligência. O interesse do programa, o clima criado pelas obras sucessivas, o investimento dos intérpretes, concorrem para a transfiguração do momento em que ele se dá. Cria-se um “estado de alma” que vibra, e o público sai do teatro transformado.

Foi o que ocorreu no dia 6 de abril, no Teatro Castro Mendes de Campinas, com a Orquestra Sinfônica de Campinas, regida pelo maestro Knut Andreas e tendo como solista o pianista Lucas Thomazinho. 

A Sinfônica de Campinas ainda não integrou os numerosos músicos vencedores do recente concurso para estantes diversas que deve oferecer fusão e estabilidade sonora quando isso ocorrer. Boa parte de seus músicos são integrados em cada concerto por contratos pontuais. Ainda assim, mostrou-se em bela forma. Aqui e ali, talvez, um ou outro pequeno tropeço, mas isso é insignificância que menos importa. O que conta, de fato, é o resultado musical no seu sentido mais profundo.

Knut Andreas, que vem realizando um trabalho musical no Brasil de importância maior, soube obter energia, equilíbrio, e produzir aquela centelha mágica que eletriza. Ele abriu o programa com Toronubá para grande orquestra, obra composta pelo gaúcho Dimitri Cervo. A obra, “dedicada à memória dos índios brasileiros que resistiram à invasão europeia a partir de 1500”, foi escrita no ano 2000 e entrou para o repertório das orquestras brasileiras. Este fato merece ser sublinhado: há, no Brasil, muitos compositores de grande qualidade. Produzem, a obra é apresentada uma vez e depois vai para a gaveta. São poucas as que conseguem vencer a inércia rotineira de tantas programações.

Toronubá é rítmica, intensa, poderosa, com sentido dramático, com apoio nas cordas, mas colorida pela percussão e pelo piano. Uma passagem central melancólica, com o som do sino, funérea, sugere a tristeza desesperada do abandono. A energia nada triunfal retorna, num crescendo angustiante que avança até um golpe conclusivo. O grande entusiasmo do público fez justiça à obra.

Há no Brasil uma tradição pianística da melhor qualidade, que se renova com a contribuição de gerações mais jovens. Lucas Thomazinho faz parte desses novos grandes talentos. Não tem mais de 28 anos. Seu domínio técnico é invejável, mas, além disso, possui, de modo evidente, uma personalidade musical afirmada, com um colorido de tons acobreados ou de ouro velho. 

No Concerto de Ravel entregou-se com maravilhosa languidez à passagem que sucede a breve introdução do primeiro movimento e que possui algo de ibérico, muito languidamente dirigida também pelo maestro. O adagio assai, com sua longa introdução do piano sem orquestra, foi oferecida com tanta sinceridade por Thomazinho, com tal ausência de afetação, com tamanha beleza no fraseado tão formidavelmente sensível, que aguinhas indiscretas teimavam em querer surgir nos olhos. O último movimento, enérgico, virtuosístico, composto para quebrar o clima meditativo do interior, foi conduzido com o brio e com o brilho exigidos pela partitura.
Foi no concerto de Ravel que a orquestra mais tropeçou, mas não importa, a música com sua beleza estavam lá. Era a primeira vez que Thomazinho enfrentava essa partitura, e ele a assumiu com tanta tranquilidade e domínio que parecia ter a obra em seu repertório há muito tempo.

Opúblico em Campinas é avaro de aplausos. Muitos solistas terminam sem poder apresentar um bis, porque as palmas acabam logo. Não foi assim ontem. Thomazinho foi muito aplaudido, chamado várias vezes, e tocou duas peças a mais. A primeira foi Negaceando, choro de Radamés Gnatalli, com um tom de jazz que combinou muito bem com o espírito do concerto de Ravel. Depois, ofereceu uma deliciosa seleção de danças cubanas, de Ignacio Cervantes.

Enfim, o programa concluiu-se pela Sinfonia em dó, composta por Georges Bizet, quando tinha 17 anos. Bizet nunca ouviu sua obra, redescoberta nos anos de 1930 e reconhecida como uma obra-prima de juventude. Inspiração feliz e espontânea, cheia de coloridos delicados, foi chamada, com justiça, por Hervé Lacombe, de “exemplo de frescor, de graça e de clareza”. 

A Sinfônica de Campinas estava mais segura do que no concerto de Ravel, justa nos ataques, solos mais controlados. A obra surgiu com bela transparência, bem conduzida, como bela celebração musical da leveza descontraída.

Leia também
Notícias 
Prepare-se: os principais destaques da programação da semana
Notícias Nova produção de ‘O barbeiro de Sevilha’ sobe ao palco do Teatro Bradesco
Crítica Em obras de Grazyna Bacewicz, Quarteto da Cidade mostra refinamento e maturidade, por Camila Fresca
Opinião Governo decreta a morte da Filarmônica em acordo assinado para gestão da Sala Minas Gerais, por Nelson Rubens Kunze

O pianista Lucas Thomazinho [Divulgação/José Luiz de Souza]
O pianista Lucas Thomazinho [Divulgação/José Luiz de Souza]

 

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

Diante desta crítica tão inteligente, sensível e honesta, está na hora daquele que emitiu uma opinião ignorante e amadora em 2009 sobre esta obra ("Sob a regência de Mannis, a ORSSE abriu a noite com a obra “Toronubá” do compositor gaúcho Dimitri Cervo. Claudicando entre um proto-minimalismo à la Glass e clichês orquestrais hollywoodianos, a obra foi, no entanto, um bom momento para se testemunhar a sincronia e precisão das cordas da orquestra, em meio às intervenções da percussão e do piano" https://concerto.com.br/textos/arquivo/surpresa-sergipana) rever os seus proto- conceitos e aprender um mínimo sobre Toronubá. (https://youtu.be/1JPAhM53wCo?si=FZyFLjuPt3jHFNQf&t=1158). Seja como for, sinto que quanto mais o tempo passar, a opinião desta ou daquela pessoa, desfavorável ou favorável, abalará esta obra como a respiração de uma criança abala a estrutura das pirâmides do Egito.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.