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“Don Giovanni” na veia (16/9/2013)
Por Nelson Rubens Kunze

Foi muito boa a récita de Don Giovanni apresentada ontem, dia 15 de setembro, no Theatro Municipal de São Paulo. Com uma fluência narrativa e um equilíbrio entre orquestra, coro e vozes que faltaram na estreia do dia 12, a encenação do italiano Pier Francesco Maestrini ganhou a importância que merece, oferecendo uma original interpretação do mito de Don Juan. A concepção cênica, que transforma Don Giovanni em um vampiro, além de entrar no espírito de Da Ponte e Mozart ao propor mais uma brincadeira para o “dramma giocoso”, se sustenta e revela novas dimensões das pulsões que habitam a natureza humana (nós mesmos!). E a cena final aparece como o ponto culminante que deve ser: o banquete infernal de Don Giovanni expiando seus pecados frente à justiça imposta qual alter ego no espelho, na figura do Comendador.

Apesar de ainda ficar aquém das delicadezas interpretativas da rica escrita mozartiana, foi muito melhor, entrosado e equilibrado o desempenho da orquestra e do Coral Paulistano dirigidos por Yoram David. Mas foi o espetacular desempenho dos solistas vocais que deu dinâmica ao espetáculo.


Leonardo Neiva no ato final de Don Giovanni, no Municipal de SP [fotos: divulgação/Sylvia Masini]

Majoritariamente formado por brasileiros, esse elenco B evidenciou uma ótima combinação sonora de alto refinamento estilístico, fazendo jus às inspiradas cenas da ópera. Em primeiro lugar, o Don Giovanni de Leonardo Neiva (entrevistado deste mês da Revista CONCERTO, leia lá!). Artista completo, Neiva sabe dosar com inteligência seu potencial vocal e cênico, e construiu seu personagem com consistência rara. Foi amparado pelo ótimo Leporello de Saulo Javan. Não é de hoje que Saulo nos diverte (em alto nível!) com seu talento histriônico e sua possante voz de baixo (Saulo, aliás, já tinha desequilibrado a partida na estreia, quando entrou no segundo tempo para substituir seu colega acometido por uma laringite). Donna Anna foi Luciana Melamed, soprano de bela e clara voz, que fez uma sensível apresentação em par com o convincente tenor italiano Enea Scala como Don Ottavio (Enea também cantou na estreia).

Outra sensação foi a grande interpretação da soprano Adriane Queiroz, uma cantora excepcional. Adriane tem uma técnica segura, um timbre aveludado e homogêneo em toda a extensão do registro, e demonstrou porque é querida nos palcos europeus (ela pertence ao elenco da Staatsoper de Berlim). Sua Donna Elvira deu grande personalidade ao personagem, tornando-o ponto relevante na concepção da encenação.

A soprano Carla Cottini fez uma Zerlina de graça em boa sintonia com o Masetto de Felipe Oliveira. O baixo uruguaio Marcelo Otegui completou o elenco fazendo um competente Comendador.


Saulo Javan, Leonardo Neiva e Adriane Queiroz: destaques [fotos: divulgação/Cassiano Grandi]

Pena que o diretor artístico John Neschling tenha escalado este extraordinário elenco apenas para duas récitas do total de sete que serão levadas ao Theatro Municipal (a segunda será no sábado dia 21). A julgar pelas apresentações que assisti, a equação deveria ser invertida. Pelo menos Leonardo Neiva, Saulo Javam e Adriane Queiroz estão prontos para mostrar seus personagens em qualquer teatro do mundo.

P.S.: Em meio ao dueto entre Don Giovanni e Zerlina, próximo ao término do primeiro ato, uma pane elétrica deixou o Theatro Municipal em completa escuridão (tendo em vista os vampiros que vagavam pelo teatro, os mais precavidos já subiram a gola para proteger o cangote...). No breu geral, cantores e orquestra levaram a música até o final da cena, ganhando aplausos da plateia. Com a luz de serviço restabelecida, o maestro John Neschling tomou do microfone para avisar que o espetáculo seria interrompido por 15 minutos. Após a retomada, a apresentação correu normalmente até o final.

[Leia também a crítica “Mozart Noir”, de Leonardo Martinelli]

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Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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