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Malheiro no São Pedro: agora vai? (2/6/2014)
Por Irineu Franco Perpetuo

Sexta-feira passada, dia 30 de maio, quando o Theatro São Pedro se preparava para abrigar a penúltima récita da nova produção de Ifigênia em Táuris, de Gluck, foi sacudido com um terremoto: na esteira da chegada de Clodoaldo Medina para a diretoria executiva do Instituto Pensarte, que dirige a casa, a direção artística do teatro seria assumida pelo maestro Luiz Fernando Malheiro (leia a notícia completa aqui).

Fiquei sabendo da nomeação do Clodoaldo no dia da estreia de Ifigênia – e a recebi muito bem. O grande público não o conhece, devido a seu low profile, porém quem acompanha os bastidores da música de concerto sabe que ele é um dos raros gestores a entender as especificidades dessa área. Medina estava no Rio de Janeiro, onde atuou no Theatro Municipal e na Orquestra Petrobras Sinfônica. Aqui em São Paulo, já tinha trabalhado na Osesp, no Festival de Inverno de Campos do Jordão... Enfim, um currículo vasto, como podemos ler em texto de João Luiz Sampaio.

Currículo também não falta a Malheiro, esse sim conhecido do grande público, mestre absoluto do Festival Amazonas de Ópera, de Manaus, que (sem desconfiar de nada) eu recentemente entrevistei para a Revista CONCERTO (para assinantes), e que pode ser considerado como um dos maiores especialistas em ópera do Brasil. Ele substitui o maestro Emiliano Patarra, que era assistente de Roberto Duarte no processo de criação da Orquestra Sinfônica do Theatro São Pedro, e que havia assumido a chefia da casa depois da breve passagem de Júlio Medaglia por lá.


Luiz Fernando Malheiro assume como novo diretor artístico do Theatro São Pedro [foto: divulgação]

Não é preciso recuar muito na memória para se lembrar de que, até 2012, o São Pedro tinha uma estranha tendência a dar passos maiores do que a perna, programando títulos que estavam muito além da estrutura técnica do teatro.

Nos últimos dois anos, pareceu haver uma readequação em seu repertório – em vez de lutar para ser um “Municipal B”, o teatro começou a buscar uma identidade própria, oferecendo oportunidades a jovens cantores com a criação de uma Academia de Ópera, e atingindo bons resultados, em 2012, com L'elisir d'amore (sob a batuta de Patarra), de Donizetti, e Werther (regida por Malheiro), de Massenet, e, em 2013, uma excelente produção de The Turn of the Screw (com regência de Steven Mercurio), de Britten.

Por outro lado, de quando em vez as derrapadas ainda persistiam. Devo confessar que, em Ifigênia, minha paciência não suportou, e fui embora no intervalo.

Nada contra Gluck – muito pelo contrário. Saudei a visão do São Pedro que, sozinho, lembrou-se da efeméride dos 300 anos de nascimento de um compositor decisivo para a arte lírica. E enfrentei de boa vontade o tempo hostil (frio e chuvoso) do dia 23 para ir à Barra Funda.

Como bem assinalou Nelson Rubens Kunze em sua crítica, a produção em si não era má, do ponto de vista cênico ou plástico. Nesse aspecto, o São Pedro parece ter sepultado de vez a era da “vergonha alheia”. Porém a música, infelizmente, esteve à beira do desastre.

Primeiro, porque Ifigênia tem grande participação coral – e o São Pedro não está dotado de um corpo profissional estável que possa fazer frente às demandas do compositor. Depois, porque a orquestra, cujo desempenho, desde sua criação, vem sendo notoriamente oscilante, soava como uma caricatura de si mesma. E, por fim, porque o elenco maltratava o idioma francês e se pautava por um excesso de gritaria e vibrato, como se estivesse em uma (má) encenação de uma ópera verista (com exceções honrosas, talvez, para o barítono Luciano Garay e para o jovem tenor Daniel Umbelino, proveniente da Academia).

O naufrágio musical dessa Ifigênia mostra que, apesar da saudável inflexão nos rumos do São Pedro, muito trabalho ainda resta a ser feito por lá. Não seria realista esperar que, em um passe de mágica, Medina e Malheiro arrumem a casa da noite para o dia. Porém suas trajetórias possuem densidade suficiente para termos esperança de que o Estado de São Paulo finalmente tenha uma casa de ópera à altura de sua importância.

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Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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