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Caminhando pela terra de Hector Berlioz (1/9/2014)
Por João Luiz Sampaio

Compositor, escritor, ensaísta, crítico, Hector Berlioz foi também inventor de si mesmo. E, em suas memórias, nos deixou pistas para que revisitássemos sua trajetória – ou ao menos o modo como ele a percebia. De sua infância, no entanto, sabemos pouco – o que torna fascinante subir os pequenos degraus da escadaria que se abre para a sala da casa em que ele nasceu, na pequena La Côte Saint-André, cidade medieval no sul da França que hoje tem pouco mais de quatro mil habitantes e abriga anualmente um festival dedicado à música do filho ilustre da terra.

A casa de três andares fica na rua principal da cidade e é testemunho da carreira bem sucedida do pai médico do compositor. Uma varanda nos fundos se abre em direção a uma vasta planície, ao final da qual começa a se formar uma cadeia de montanhas que, há cerca de 60 quilômetros daqui, se une aos Alpes. Com exceção de um ou outro poste elétrico, é de se imaginar que pouco deve ter mudado nesta paisagem desde a primeira metade do século XIX. O quarto em que nasceu o pequeno Hector também está preservado, assim como o cômodo em que passou sua infância e adolescência, antes de se mudar para Paris, onde, após dois anos, para desgosto de seu pai, ele acabaria abandonando os estudos de medicina para se dedicar à música.


Fachada da casa de Hector Berlioz, hoje transformada em museu dedicado ao compositor [foto: divulgação]

A casa hoje abriga um museu, no qual estão, por exemplo, os instrumentos em que Berlioz deu os primeiros passos na música. Há também cadernos de anotações de sua adolescência, livros em que rabiscava melodias de músicas aprendidas na escola ou na igreja, seus primeiros diplomas. E, claro, materiais referentes à carreira que ele desenvolveria: primeiras edições de seu tratado de orquestração; partituras anotadas, como a da ópera Benvenuto Cellini; o tema da Sinfonia fantástica rabiscado pelo próprio autor e dado de presenta a alguém; esboços à mão de suas críticas; trechos de seu Romeu e Julieta; e assim por diante.

Caminhar pela cidade e pelo campo que a circunda, no entanto, tem pouco a ver com o que de concreto o museu nos revela. A todo instante, na verdade, o que passa pela cabeça são as sensações que o pequeno Berlioz deve ter experimentado por aqui. Foi em La Côte, por exemplo, que teve a certeza de que a música seria importante na sua vida, em um dia “de primavera, no qual o sol brilhava e a brisa balançava os álamos murmurantes, quando um aroma impossível de definir dominava a atmosfera”. Ou então que entendeu que, dono de um coração “ávido de amor”, toda sua trajetória seria definida por “uma longa e ardente busca de um ideal”.

No palco de concertos, a evocação das memórias permanece. Como ouvir a Sinfonia fantástica (impecavelmente interpretada pela Orquestra Jovem do Estado de São Paulo no festival) sem lembrar que seu célebre tema vem de uma canção escrita na adolescência e dedicada a Estelle, a primeira moça por quem Berlioz, então com 12 anos se apaixonou? E como não pensar no silêncio da paisagem campestre da região de Rhônes-Alpes quando se ouve os relatos de amor e morte que estão na base da inspiração para o ciclo de canções Les nuits d’été (que aqui revelou, aliás, uma excepcional mezzo-soprano americana chamada Kate Lindsey)?

Com um pouco de imaginação, no final das contas, em La Côte Saint-André, a memória de Berlioz não está preservada principalmente em monumentos ou museus, mas na paisagem – em especial a emocional – que o compositor revisitou de alguma forma ao longo de sua trajetória. Ou talvez assim queremos imaginar, unindo vida e obra de maneira talvez indissociável. Mas o próprio Berlioz talvez não se incomodasse com isso.

[O jornalista João Luiz Sampaio viajou a convite do Festival Berlioz]

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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