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“Artémis” recuperada (13/10/2014)
Por Guilherme Goldberg

O véu através do qual a verdade das coisas pode ser meio escondida e meio revelada em uma obra de arte é o véu dos símbolos. Podemos interpretá-los literalmente, pelo seu valor nominal, o que é parte do seu significado, mas também podemos, no mesmo ato, interpretá-los simbolicamente, que é outra e mais importante possibilidade.

Esta foi a premissa que levou Robert Donington a escrever Wagner’s ‘Ring’ and its Symbols: the Music and the Myth, a qual compartilho em uma pesquisa sobre o episódio lírico Artémis, uma das parcerias entre Coelho Netto, o autor do libreto, e Alberto Nepomuceno, seu compositor.

Em Artémis, de acordo com a terminologia de Donington, o seu valor de face lida com o mito do artista, Pigmalião, que, encantado pela sua obra, não mede esforços para dar-lhe vida. Daí, o sacrifício de sua filha, Délia. Logo, aqui está o drama que gerou tanta discórdia já na estreia da obra.

Entretanto, se atentarmos ao simbolismo dos personagens postos em ação, observa-se que o drama tratado é muito mais profundo, pois tabu. Pode-se resumi-lo em duas questões: 1) Encontram-se em cena duas figuras completamente incompatíveis: Pigmalião, personificado em Hélio, o escultor, e a deusa Artémis, representada ou referida como uma estátua; 2) Délia, nome da filha do escultor, é um dos epítetos de Artémis. Em outros termos, Artêmis e Délia são um duplo.

Portanto, esta combinação de arquétipos é o ingrediente que deve ser desvendado.


Valentina Safatle como Délia, filha de Pigmalião, no Theatro São Pedro [foto: Décio Figueiredo/divulgação]

Se, de um lado, Pigmalião é o artista que apaixona-se pela sua criação, de outro, Artémis é a deusa inatingível, protetora das jovens donzelas. Assim, a união entre Pigmalião e Artémis é impossível, pois tratam-se de princípios completamente excludentes. Se interpretarmos que Artémis não só está representada em uma miragem de estátua, mas presente, em carne e osso, na sua jovem filha, Délia, a densidade do drama toma outra dimensão e a relação incestuosa toma vulto.

Pois com grande satisfação, em janeiro deste ano, ano em que se comemoram os 150 anos de nascimento do compositor Alberto Nepomuceno, recebi mensagem do diretor cênico Roberto Alvim, responsável pela recente montagem do episódio lírico Artémis, de Coelho Netto e Alberto Nepomuceno, no Theatro São Pedro, em São Paulo, onde solicitava material para estudo. Confesso que a curiosidade pelo resultado foi grande e compareci em uma das récitas.

A cena, em jogo de luz e sombras, foi extremamente feliz, colaborando na valorização dos personagens, embora, eventualmente, alguma iluminação parecesse demasiado ofuscante ao público. Se, no libreto, Netto colocava a cena nos arredores de Atenas, Alvim, em sua montagem, globalizou-a, representando uma cena que poderia ocorrer em qualquer lugar. Longe de representar gregos, Alvim apresenta personagens que podem ser nossos vizinhos. Resumidamente: foi uma releitura moderna, na qual o diretor cênico foi muito hábil na interpretação e comunicação de seu simbolismo.

Quanto à música, seu tributo a Wagner não se restringe a uma lembrança ao início do prelúdio de Tristão e Isolda, ou mesmo a Tannhäuser, mas vincula-se diretamente à máxima wagneriana na qual a música deve ser um meio à expressão, e não um fim. Em outros termos, a música não só acompanha os personagens, mas também faz parte deles.

Sua introdução, que apresenta o resumo sonoro do episódio lírico com uma incrível economia de figurações, mostra um denso cromatismo lânguido e sugestivo, bem como, ao seu final, há a premonição do seu desfecho.

Uma das cenas a destacar ocorre durante o interlúdio, onde Hélio medita profundamente, relembra a sua inspiração tomando forma, vê-se extasiado pela fama e honrarias, mas acaba por cair em si, impotente. Um momento de intenso melodismo, um terno diálogo entre violoncelo e violino, que, aos poucos, turva-se em denso cromatismo.

Embora seu melodismo encontre-se além do que se costuma chamar de inflexões típicas da música brasileira, pois raros são esses momentos melódicos, deve-se ainda salientar a ária Filha da rocha e do cinzel, cantada por Hélio após o sacrifício de Délia. A intensidade desse momento já havia sido declarada por Artur de Azevedo, entre outros, quando de sua estreia, em 1898. Digno de nota que, nela, há uma homenagem a Tannhäuser, em uma citação condensada.

Seus intérpretes, Inácio de Nonno, como o escultor Hélio, Eiko Senda, como sua esposa Héstia, e Valentina Ghiorzi Safatle, como sua filha Délia, em conjunto com a Orquestra do Theatro São Pedro, regida por Emiliano Patarra, e o coro Vozes Paulistanas, mostraram-se competentes para a empreitada.

Portanto, uma obra acusada de imprópria à cena, pois poema sinfônico, com um tema inapropriado, pois tabu, vê-se recuperada em sua essência após um longo período de esquecimento.

Uma comemoração digna do sesquicentenário daquele que já foi um dia reverenciado como “pai da música brasileira”.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Guilherme Goldberg - é musicólogo e professor de Ciências Musicais da Universidade Federal de Pelotas. É autor de “Um Garatuja entre Wotan e o Fauno: Alberto Nepomuceno e o modernismo musical brasileiro”.

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