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Oficina de Música de Curitiba promove ótima edição (12/1/2016)
Por Nelson Rubens Kunze

Tradicionalmente nesta época, a cidade de Curitiba se transforma em uma verdadeira cidade da música, pois aqui que se realiza, há 34 anos, um dos principais festivais do país: a Oficina de Música de Curitiba. Com direção geral de Janete Andrade e há duas edições sob a engajada direção artística do maestro Cláudio Cruz – e com um decisivo e renovado apoio da Prefeitura da Cidade –, a Oficina vem passando por um importante processo de revitalização, como fica claro pela dimensão e qualidade da presente edição: entre os dias 7 e 27 de janeiro, em suas duas etapas “erudita” e “popular”, mais de 1800 alunos frequentarão 120 diferentes cursos e oficinas ministrados por 110 reconhecidos professores do mundo inteiro. Além disso, a Oficina de Música reforçou sua ação de difusão e oferecerá, durante esses 20 dias, mais de 80 apresentações.

Fui convidado para ir a Curitiba para participar de uma mesa-redonda sobre gestão cultural – também parte da programação da Oficina –, e aproveitei para acompanhar os primeiros dias de sua etapa “erudita”, que se iniciou no dia 7 e se estenderá até o dia 16 de janeiro. Entre nomes como Cláudio Cruz, Nahim Marun, Paulo Bosísio, Ricardo Bologna, Sérgio de Oliveira e Washington Barella (para citar apenas alguns dos professores brasileiros que participam do evento), fiquei em dúvida que curso visitar. Acabei optando pela primeira aula de Flo Menezes, que, junto com Harry Crowl, ministra o curso de composição. Menezes, professor do Instituto de Artes da Unesp, falou de processos de composição e das “propensões harmônicas” tomando como exemplos trechos de grandes obras da história da música. Em alto nível, os 15 alunos de diversas cidades do Brasil – alguns estudantes, outros formados e já atuantes – eram confrontados com as técnicas e os desafios da criação atual. Nas partes da tarde, quem assume as aulas é Harry Crowl, compositor, musicólogo e professor da Unespar. Os alunos terão poucos dias para absorver os ensinamentos dos mestres e comporem miniaturas que serão apresentadas, no fim da semana, em um concerto dirigido pela maestrina Simone Menezes. Nada mal para os compositores em formação. E o que dizer da oportunidade que a Oficina de Música oferece aos jovens instrumentistas, que podem travar contato e aprender com alguns dos grandes artistas do mundo como Antonio Meneses (violoncelo), Nikolaus Koeckert (violino) ou Fábio Zanon (violão)?

Concerto de abertura da 34ª Oficina de Música de Curitiba [divulgação / Gilson Camargo]

Presenciei também o grande concerto de abertura da 34ª Oficina de Música de Curitiba, com a Camerata Antiqua e solistas sob a direção do maestro Cláudio Cruz. Com o tradicional Teatro Guaíra praticamente lotado (o teatro tem mais de 2.000 lugares!), a cerimônia teve início com uma breve fala de apoiadores do evento, do presidente do Icac (organização social que realiza a Oficina) Marino Galvão Junior, do presidente da Fundação Cultural de Curitiba (equivalente a nossa secretaria de cultura) Marcos Cordiolli, e do prefeito Gustavo Fruet. Após os agradecimentos, todos chamaram a atenção para a dimensão e nível de excelência que o evento alcançou, a despeito da grave crise que afeta o país.

O programa teve a Sinfonia nº 29 de Mozart, o Concerto para violoncelo em ré maior de Haydn (com solos de Antonio Meneses), e – o melhor da noite – a Missa da Coroação, também de Mozart, com a participação do coro e dos solistas Luisa Favero (soprano), Ariadne Oliveira (mezzo), Alexandre Mousquer (tenor) e Cláudio de Biaggi (baixo).

Já na sexta-feira, dia 8, assisti a um recital de câmara que reuniu na Capela Santa Maria o violinista Winston Ramalho, o violista Alexandre Razera e o pianista Luiz Guilherme Pozzi em bonitas interpretações de Ravel (Sonata para violino nº 2) e Brahms (Sonata op. 120 nº 1 para clarinete em versão para viola e o Trio op. 40 para violino, trompa e piano também na versão para viola). Antes, dois ótimos jovens pianistas japoneses (orientados no Japão pelo professor brasileiro Claudio Soares, que ali faz destacada carreira como docente) estrearam no festival: o jovem talento Takayuki Nikaido interpretando Prokofiev, e a graciosa e carismática Momoka Yano tocando Rachmaninov.

Se o que tinha passado já era muito bom, o que se seguiu foi ainda melhor: Antonio Meneses solo no Teatro Paiol. No sábado, dia 9, cerca de 200 pessoas acomodadas em uma arquibancada em forma de arena testemunharam o brilho de um dos maiores músicos brasileiros da atualidade. Com crescente concentração e virtuosismo artístico, Meneses interpretou a Suíte nº 2 de Bach, quatro Caprichos de Carlo Alfredo Piatti (1822-1901) e a Suíte para violoncelo solo de Gaspar Cassadó (1897-1966).

Antonio Meneses é aplaudido no Teatro Paiol [divulgação / Gilson Camargo]

E se eu já imaginava que esse seria o ápice de minha breve estada curitibana, engano! Pois a apresentação seguinte, duas horas depois, na Capela Santa Maria, foi um dos mais marcantes concertos de música antiga a que já assisti.

Aqui vale a pena abrir um parêntesis. A Oficina de Música e a cidade de Curitiba sempre tiveram uma forte e histórica ligação com o repertório pré-clássico. Também nesta edição, há todo um segmento dedicado à música antiga, que tem direção artística do violinista Rodolfo Richter. Curitibano, Rodolfo cresceu e fez os seus primeiros estudos naquela cidade, mas cedo ganhou o mundo para aperfeiçoar-se na Royal Academy of Music com os principais mestres do violino. Já faz muitos anos, também, que Rodolfo optou pela música antiga, e hoje o artista é spalla da Academy of Ancient Music (Inglaterra), diretor convidado do Bach Collegium San Diego (EUA) e professor de violino barroco no Royal College of Music em Londres. Para a Oficina de Música de Curitiba, Rodolfo Richter reuniu grandes artistas de instrumentos antigos, como a viola da gamba, o violone, a teorba e o corneto, para cursos especialíssimos.

Música antiga da Capela Santa Maria [divulgação / Gilson Camargo]

E esses professores, então, sob sua direção, realizaram a apresentação com o título “A música francesa na corte do Rei Sol”, com obras de autores como François Couperin (1668-1733), de La Barre (c. 1640-1700), Sante-Colombe (1640-1700), Marin Marais (1656-1728), Michel Lambert (1610-1696), Marc-Antoine Charpentier (1643-1704) e Jean-Féry Rebel (1666-1747), entre outros, em uma emocionante viagem musical. Entre os 15 artistas realmente sensacionais que participaram do concerto, não poderia deixar de nomear, além do próprio Rodolfo Richter, a soprano Maria Cristina Kiehr, o tenor Rodrigo Del Pozzo, a flautista Rachel Brown, o violonista Manfred Kraemer, o gambista Juan Manuel Quintana, a guitarrista Dolores Costoyas e o cravista James Johnstone.

Uma noite memorável, que sem dúvida será um dos pontos altos de todo o festival.

[Nelson Rubens Kunze ficou hospedado em Curitiba e visitou os eventos da 34ª Oficina de Música a convite do Icac - Instituto Curitiba de Arte e Cultura.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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