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Noites memoráveis com Isabelle Faust e Alexander Melnikov (18/5/2017)
Por Camila Frésca

Na última semana, Isabelle Faust iniciou suas atividades como artista em residência da Osesp. O primeiro compromisso dessa badalada violinista alemã foi com a orquestra, interpretando o Concerto para violino de Brahms, dias 11, 12 e 13 [clique aqui para ler a crítica de Irineu Franco Perpetuo]. Mas o que já tornou sua residência artística um acontecimento memorável por aqui foram os três recitais dedicados às dez sonatas para violino e piano de Beethoven, nos dias 14, 15 e 16, acompanhada de seu parceiro musical Alexander Melnikov.

No domingo, primeiro dia da maratona que somou quase quatro horas de música, Faust e Melnikov interpretaram as três primeiras sonatas op. 12 – as de número 1, 2 e 3 na ordem geral – mais a virtuosística nº 9, op.47, conhecida como “Kreutzer”. A plateia, cheia, acompanhou com atenção o programa de fôlego. As primeiras sonatas, escritas nos últimos anos do século XVIII, possuem um inequívoco clima mozartiano/ haydiniano, e apesar de ainda longe das mais maduras, já trazem alguns procedimentos em comum: na primeira sonata, por exemplo, podemos ver uma figura melódica bastante semelhante daquela que abre a conhecida Sonata nº 5, “Primavera”, escrita poucos anos mais tarde. Outra característica já presente e que vai se repetir ao longo de todas as obras são pausas um tanto inusitadas. As pausas, aliás, foram o primeiro elemento a chamar atenção na interpretação do duo: é impressionante a carga dramática e o clima de suspensão que Faust e Melnikov impõem a cada uma delas, como se uma ação inusitada acontecesse subitamente, pedindo atenção máxima àquilo que vem a seguir.


Isabelle Faust e Alexander Melnikov [Divulgação / Fábio Furtado]

Após o intervalo, os músicos interpretaram uma das peças mais conhecidas do ciclo, a virtuosística “Sonata Kreutzer”, dedicada ao francês Rudolf Kreutzer, da primeira geração de professores de violino do Conservatório de Paris. A “Kreutzer” se inicia com acordes harpejados ao violino, em geral interpretados com grande dramaticidade – como aliás conviria à escola francesa do violino à época, da qual Rudolf Kreutzer era um dos grandes representantes. Contrariando essa expectativa, Isabelle Faust iniciou a peça com uma entrada de gestos mais bachianos do que românticos, não apenas mantendo o impacto do trecho, no entanto, como causando a surpresa de ouvir algo muito belo e ao mesmo tempo diferente do esperado. Não contentes com os cerca de 90 minutos de música, Faust e Melnikov deram bis e atenderam ao público no final da noite.

No segundo dia, um recital mais curto reuniu as sonatas menos conhecidas: as do op. 30, nºs 6, 7 e 8 na numeração geral. Sem intervalo e com menor número de público, o concerto transcorreu em grande concentração e intimidade. A ideia de equilíbrio está expressa já no nome das sonatas de Beethoven: o compositor não as chamou de sonatas para violino e piano, mas de “sonatas para piano e violino”. A simples inversão da ordem dos instrumentos queria significar que Beethoven, ao contrário do usual, estava propondo um diálogo consistente entre os dois instrumentos, não fazendo apenas do piano um suporte harmônico acompanhador das peripécias do violino. Esse equilíbrio está patente em todas as obras, mas em nenhuma delas ele é tão visível como nessas três sonatas do op.30, e arrisco-me a dizer que na Sonata nº 6 o piano é que é o protagonista. Tudo isso foi claramente observável a partir da interpretação impecável de Faust e Melnikov – que é, aliás, um pianista tremendo. A fidelidade do duo à partitura se atém aos mínimos detalhes de andamento e dinâmica, resultando, ao mesmo tempo, numa interpretação muito natural, expressiva e em perfeito entrosamento.

No terceiro e último dia, Isabelle Faust e Alexander Melnikov já subiram ao palco (merecidamente) consagrados pelo público, que aplaudiu longamente a entrada da dupla. Faust é discreta e ao mesmo tempo muito expressiva no palco, com um sorriso cativante. Parecia mais à vontade e mais feliz ali com seu parceiro do que à frente da orquestra no concerto de Brahms. Movimenta-se bastante, porém deixando o violino estável o tempo todo. Nos três dias, usou a mesma roupa: uma blusa em tons amarelos e uma saia longa preta. De fato, nada que remetesse à tradicional postura de “diva” (na entrevista que concedeu à Revista CONCERTO, ela falou sobre este e outros temas de sua carreira. Vale a pena conferir na íntegra aqui). A primeira parte do recital, que teve a casa tão cheia quanto no primeiro dia, trouxe as sonatas nº 4 e nº 5 – esta, a conhecidíssima e admirada “Sonata Primavera”. Após o intervalo, o encerramento da noite e do ciclo ficou com a Sonata nº 10. Escrita só dez anos após a de nº 9, é uma joia camerística que não precisa de arroubos líricos (como a “Primavera”) ou virtuosísticos (“Kreutzer”) pra se firmar como uma obra-prima. Mais uma vez, Isabelle Faust atendeu ao público após o concerto.

Nos três dias, Faust e Melnikov não deixaram o palco sem dar um bis, e aqui temos um capítulo à parte, que renderia um outro texto. Mas, para um comentário breve, basta mencionar os compositores escolhidos em cada um dos dias: John Cage (Noturno), Anton Webern (primeira das Quatro peças op.7) e Morton Feldman (Vertical Thoughts II). Pulamos da linguagem romântica, tão cara ao público, para as especulações do século XX e XXI. Suspeito que Isabelle Faust quis confrontar ou ao menos instigar os espectadores que compareceram para ver standarts românticos – e devo dizer que alguns, mal educados (poucos, é verdade), mesmo tendo esperado pelo bis, levantaram-se no meio (fazendo barulho, é claro). Foram todas obras interessantíssimas, a considerar a interpretação da dupla: miniaturas especulativas do som, que não deixavam de ter sua graça. Foi impressionante observar a mudança de clima, de timbre, de gramática musical dos dois intérpretes – poderia mesmo se pensar que se tratava de outros músicos, especializados em música contemporânea.

Foram apresentações sublimes e certamente um dos pontos altos da temporada da Osesp neste ano. O contentamento do público presente, e dos músicos, era fácil de se observar. Isabelle Faust conquistou o coração dos melômanos, e tenho certeza que muita gente já está ansiosa pra que setembro chegue, para ouvi-la no concerto de Szymanowski e nas Partitas e Sonatas de Bach.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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