Belo Horizonte apresenta “La Bohème” de Puccini

por Nelson Rubens Kunze 03/11/2011

O Palácio das Artes de Belo Horizonte acaba de apresentar a sua segunda produção lírica do ano, La Bohème, de Giacomo Puccini, um dos títulos mais populares do gênero em todo mundo (o próprio Palácio das Artes já o encenou duas vezes, em 1981 e em 1996). A ópera, estreada em Turim em 1896, é associada ao verismo italiano, tendência estética que seguiu o Romantismo e que trouxe de volta ao palco a realidade quotidiana. La Bohème, que tem libretto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa baseado no livro Scènes de La Vie de Bohème de Henri Murger, conta a história das dificuldades financeiras e dos amores de quatro artistas – Mimì, Rodolfo, Musetta e Marcello – na Paris do início do século XIX.


Ponto culminante de La Bohème é o falecimento de Mimì, no finalzinho da ópera: os amigos, ainda esperançosos, buscam soluções, chamam o médico, trazem remédios, e não percebem o momento exato da morte da doente. O último a se dar conta é o próprio Rodolfo, o amante, numa passagem de alta tensão dramática, em que ainda clama duas vezes por Mimì antes de desabar em sofrimento.


Também essa sequência funcionou bem na nova montagem em Belo Horizonte. Aqui, antes de Rodolfo perceber o que ocorreu, o diretor Henrique Passini faz Musetta cruzar o palco correndo, explorando bem esse átimo de tensão que antecede os acordes finais da partitura de Puccini.


Foi correta a encenação concebida pelo “regisseur” (como está no programa) Luiz Aguiar, realizada pelos cenógrafos Fernando Maculan e Rafael Yanni e dirigida por Henrique Passini. Simples e funcionais, os cenários forneceram uma moldura adequada para o desenvolvimento da narrativa. E esteve mais uma vez bem a Filarmônica de Minas Gerais, conduzida desta vez pelo maestro Roberto Tibiriçá, assim como esteve bem o desempenho do Coral Lírico de Minas Gerais, do Coral Infantojuvenil e da Companhia de Dança do Palácio das Artes.


A Mimì da noite, a soprano venezuelana Mariana Ortiz, tem um amplo registro vocal, em que se destacam agudos límpidos e bem projetados. Sua atuação foi excelente, fazendo jus a uma biografia que ostenta trabalhos com Renè Jacobs, Simon Rattle e Gustavo Dudamel. Com razão, era dela de quem se falava nos intervalos...


Mas é preciso destacar no elenco, também, dois outros cantores. Primeiro, de quem já falamos em outras oportunidades, o barítono Leonardo Neiva, uma das mais bonitas e expressivas vozes da atualidade. E em segundo, Fabíola Protzner, mineira de Belo Horizonte, que fez o papel de Musetta. A soprano já tinha chamado atenção em um papel secundário da Menina das nuvens, de Villa-Lobos, e, nesta Bohème, apresentou-se muito bem, com boa voz e ótima movimentação cênica.


Quem ficou devendo no quarteto protagonista foi o tenor Marcos Paulo, que fez o decisivo papel de Rodolfo. Ainda que desenvolto em sua atuação e com intervenções normalmente corretas, Marcos Paulo não foi par para a destacada Mimì de Ortiz.


De resto, foram corretas as atuações dos comprimários Ariel Cazes (Colline) e Pedro Ometto (Schaunard). Importante mencionar ainda a bela homenagem feita ao barítono Rio Novello, destacada figura de nossa música, viúvo da professora Neyde Thomas. Aos 85 anos, Novello fez – com a competência de um grande mestre – os breves papéis de Alcindoro e Benoit.


Originalmente, essa encenação estava prevista para ser dirigida por Jorge Takla, que acabou desistindo, talvez por conta das dificuldades e amarras próprias do serviço público. Ainda que nesse caso a direção Henrique Passini e Luiz Aguiar tenha funcionado satisfatoriamente, o resultado final da produção acabou ficando abaixo do padrão ao qual nos acostumamos nas óperas mineiras dos últimos anos.

Veja a seguir algumas fotos da encenação [Fotos: divulgação Palácio das Artes / Paulo Lacerda]



La Bohème, Palácio das Artes, Ato 2



La Bohème, Palácio das Artes, Ato 4


Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte a convite do Palácio das Artes e assistiu à récita do dia 29 de outubro.