Com Britten, São Pedro cala a boca da crítica

Título moderno, elenco equilibrado, encenação plasticamente convincente e orquestra tocando bem: tudo isso aconteceu em São Paulo e, pasmem, no Theatro São Pedro, durante a encenação de The Turn of The Screw (A Volta do Parafuso), na última terça-feira, 18 de junho.


Foi uma semana excepcional na cidade, e não apenas pela onda de protestos. Nas duas principais casas de ópera paulistanas estavam em cartaz, simultaneamente, montagens de duas obras do século XX, estreadas com pequeno intervalo no Teatro La Fenice, de Veneza: The Rake's Progresss de Stravinski em 1951 (apresentada agora no Municipal) e The Turn of The Screw de Britten em 1954 (no São Pedro).



Cena de A Volta do Parafuso no Theatro São Pedro [foto: divulgação/Décio Figueiredo]


Com elas, o público mais tradicional está descobrindo os encantos de uma música que, embora tonal, não necessariamente faz você sair do teatro assobiando melodias. Melhor: em vez de exercitar a complacência com as tramas rasas do repertório italiano do século XIX (que não raro fazem os roteiros dos blockbusters hollywoodianos de hoje parecerem densos e sofisticados), a plateia pode exercitar o intelecto com libretos sofisticados.


Assim é que, se em Rake's Progress Stravinski contou com a colaboração de um poeta do quilate de W. H. Auden, em The Turn of the Screw Britten teve a ambição de adaptar uma das mais instigantes novelas desse grande mestre da ambiguidade chamado Henry James.


Não haveria, obviamente, como reproduzir no palco todas as camadas de significado do rico texto jamesiano. A exemplo do que faria posteriormente Jack Clayton em sua adaptação cinematográfica de 1961 (Os Inocentes, com roteiro de Truman Capote, e atuação gigantesta de Deborah Kerr), Britten e sua libretista, Mywfawny Piper, fazem um recorte da obra de James, optando por conferir concretude aos personagens fantasmagóricos de Peter Quint e Miss Jessel.



Cena de A Volta do Parafuso no Theatro São Pedro [foto: divulgação/Décio Figueiredo]


A ópera prevê nada menos do que 21 trocas de cena, e a diretora Lívia Sabag se vira magnificamente com o orçamento notoriamente restrito do Theatro São Pedro, em uma montagem em que a beleza dos figurinos de Veridiana Piovezan e a iluminação de Wagner Pinto se articulam com os cenários despojados e funcionais de Nicolás Boni para criar uma totalidade envolvente.


No elenco, vale destacar os cantores mirins Ivan Marinho e Mariana Silveira, nascidos em 2000 (!), e que se desencumbem com assombrosa desenvoltura da complexidade de suas partes.


Luísa Kurtz, no enorme papel da Governanta, que canta durante praticamente todo o espetáculo, é um benfazejo sopro de renovação nos viciados elencos de ópera paulistanos. Levando o tour de force até o fim, sem jamais cair a intensidade, Kurtz mostrou ter qualidades cênicas no mínimo equivalentes às sopranos de seu registro que vêm monopolizando a cena lírica daqui nas duas últimas décadas – e dotes vocais superiores à maioria.


Cena de A Volta do Parafuso no Theatro São Pedro [foto: divulgação/Décio Figueiredo]

Em papel menor (Miss Jessel), Luciana Bueno mostrou méritos equivalentes, fazendo de suas altercações com Kurtz o ponto alto do espetáculo. Juremir Vieira padeceu um bocadinho com as passagens em falsete de sua parte, mas encarnou um Quint adequadamente enérgico e assertivo, enquanto Céline Imbert trouxe sua carga habitual de eletricidade a Mrs. Grose.


O grande salto de qualidade, contudo, ouviu-se no fosso da orquestra. Sempre achei que, se for para trazer convidados, em quaisquer áreas, que sejam daquele tipo incontestável, que resolvem a parada. Pois o norte-americano Steven Mercurio extraiu da notoriamente precária Orquestra do Theatro São Pedro – aqui, em formação de câmara – uma sonoridade insuspeitada, não apenas driblando as dificuldades da partitura como fazendo música de verdade. Que chamem Mercurio de volta, mais vezes!


Em meio a tantos solos executados com refinamentos de fraseado, talvez seja uma injustiça destacar alguém em especial. Mas injustiça maior ainda seria não colocar em relevo o virtuosismo fluente e inspirado de Paulo Henrique Almeida (mais um egresso da prolífica usina de talentos do professor Eduardo Monteiro) nas passagens de dificuldade concertante que Britten escreveu para seu instrumento, o piano.



Cena de A Volta do Parafuso no Theatro São Pedro [foto: divulgação/Décio Figueiredo]


Aliás, o centenário do compositor britânico ofereceu uma bem-vinda oportunidade para o São Pedro resgatar uma dívida para consigo mesmo: o teatro havia previsto The Turn of The Screw para 2009, com regência de Luiz Fernando Malheiro e direção cênica de Caetano Vilela, mas acabou cancelando, em privilégio de uma escolha equivocada de títulos que foi a regra nos últimos anos, e que agora parece ter sido, definitivamente, banida da casa.


Para encerrar: vi a récita ao lado do colega Leonardo Marques, do Rio de Janeiro, que me dizia que a função da crítica é falar mal dos artistas, e ter a boca calada por eles. Andei criticando bastante o São Pedro, mas não seria o caso de dizer que o teatro calou a minha boca. Ele fez mais. Arrancou-me uns “bravos” ao final. E que venham muitos outros!



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