Com os dois pés na realidade

por João Marcos Coelho 05/05/2009

Um passeio pelos lançamentos mais importantes de gravações no mercado internacional nos últimos meses pode surpreender quem acha que o CD morreu. Os downloads estão crescendo exponencialmente e as vendas de CDs caindo em paralelo. Mas, talvez por nostalgia, ainda se lança muito CD no mercado internacional.
     
E ainda bem que músicos e gravadoras, sobretudo os selos independentes, mexem-se com muita imaginação para assegurar um espaço expressivo na vida dos melômanos (eta palavra feia, mas ela qualifica bem quem gosta de ouvir música clássica principalmente por meio de gravações, em áudio ou vídeo, ou em áudio e vídeo).
     
Uma característica, quase uma tendência, pode ser detectada: há uma determinação de se trazer a música clássica para a realidade do dia-a-dia das pessoas. O exemplo mais notável é o do genial gambista catalão Jordí Savall. Por meio de sua gravadora, a Alia Vox, ele tem tocado impressionantes projetos discográficos que retiram a música clássica da sua redoma habitual e a faz mergulhar, com os dois pés, na realidade conturbada em que vivemos. Nos últimos quatro anos Savall lançou quatro álbuns duplos que não podem ser mais chamados de CDs. São verdadeiras obras de arte: os dois CDs vêm acoplados nas contracapas de livros de capa dura, com 300, 400 páginas cada um, fotos e ilustrações em cores – e o principal, textos suculentos e variados sobre os temas de cada um dos projetos, traduzidos para nada menos do que oito línguas: espanhol, catalão, italiano, inglês, francês, alemão, árabe e hebraico.
     
E os temas? Todos absolutamente antenados com o mundo real. O primeiro deles, fantástico, de 2006, comemorou os 400 anos do “Don Quixote” de Cervantes: Savall reconstrói o universo musical que cercou a cabeça do genial escritor espanhol no início do século 17. Músicas alternam-se com recitação dos textos do “Don Quixote”.
     
Em 2007, Savall escolheu Cristóvão Colombo e a descoberta da América como tema. Mesmo tratamento, igual cuidado gráfico e de texto, e as traduções para as oito línguas citadas. Um deslumbramento a viagem musical que ele faz pelas músicas da América ainda em vias de ser “descoberta” pelos europeus.
     
No ano passado, lançou “La Ruta de Oriente”. No primeiro CD, os sons da Europa do humanismo; no segundo, as incursões pelo Oriente, incluindo Japão e China. A seu lado, a inefável voz de sua mulher, Montserrat Figueiras, Hespérion XXI e a Capella Reial de Catalunya.
     
Mas neste início de 2009 Savall superou-se. Por encomenda da Cité de la Musique de Paris, ele montou um grandioso espetáculo em torno da cidade de Jerusalém, umbigo do mundo, que em 3 mil anos de história foi muçulmana, judaica e cristã. Ou seja, foi sede central das três grandes religiões monoteístas do mundo. O primeiro CD começa com as lendárias trombetas de Jericó; e o segundo termina nos dias de hoje, com músicos árabes, judeus, europeus, enfim de todo o mundo, que participaram das gravações, gritando paz em uma miríade de línguas, num “happening” criado por Jordí Savall.
     
Projetos deste tipo custam caro? Claro. Mas Savall tem o apoio decisivo do governo da Catalunya – e consegue comercializar estes livros-CDs luxuosíssimos pelos preços normais (o que encarece, no caso de se comprar estes produtos por aqui, é o frete, por causa do peso de cada volume).
     
Um detalhe importante: não há nenhuma interferência oficial, de governo ou instituição alguma, em seu trabalho. Muito diferente do que o Ministério da Cultura está tentando fazer por aqui: modificar a lei Rouanet para poder praticar um dirigismo ideológico não só perverso como suicida. Não existe meio mais eficaz de se sufocar a criação artística do que o dirigismo. Que o digam os companheiros Goebbels, na Alemanha dos anos 30, e Stálin, na URSS, pouco depois.