Daniel Hope: craque do violino e do tablet

Enquanto boa parte da experiência de um torcedor de futebol consiste em “secar” os adversários, na música de concerto essa prática está bem menos difundida. Contudo, devo confessar que, se não estava “secando” ninguém, entrei com uma prevençãozinha contra Daniel Hope no concerto de abertura da temporada internacional do Mozarteum Brasileiro, no dia 6 de maio, na Sala São Paulo.

Não tenho nada contra o violinista, que nem conheço pessoalmente. Tampouco me oponho aos rumos pouco ortodoxos que ele, de quando em vez, dá à sua carreira – não é o primeiro, nem o último, nem o único dos artistas “eruditos” a usar o crossover para encher a geladeira.

O que me incomodava era que a decisão de Hope de privilegiar sua carreira solo acabou, em 2008, com o Beaux Arts Trio, que ele integrava com Menahem Pressler (piano) e Antonio Meneses (violoncelo). Claro que o violinista tem todo o direito de fazer de sua vida o que bem entender; mas, que deu dó ver um dos maiores e mais gloriosos conjuntos de câmara do último meio século encerrar sua trajetória, isso deu.

De qualquer maneira, a Arte del Mondo, que acompanhou Hope em sua turnê brasileira, não tem nada a ver com isso. E foi sua interpretação da Sinfonia nº 29 de Mozart que começou a dispersar meu “bode” do concerto.

Se nossas orquestras têm feito coisas surpreendentes no repertório que vai do Romantismo em diante, o estilo clássico, por aqui, segue incompreendido e maltratado. À exceção do iluminador Réquiem de Mozart de Rinaldo Alessandrini no Theatro Municipal de São Paulo, no ano passado, a música desse período costuma ser feita no Brasil com base em concepções anacrônicas – e com resultado entediante.

Assim, foi não apenas saudável, como pedagógico, ver os 20 músicos da orquestra alemã, tocando de pé, sob a inspirada direção do spalla Werner Ehrhardt (que chefiou por duas décadas o grupo de instrumentos de época Concerto Köln), mostrarem o tipo de articulação, ataque, restrição de vibrato, transparência de textura e contraste de tempo e afetos que se espera ouvir em Mozart.

Chegou a hora, então, de ouvir Hope. Munido de um tablet em que leu não apenas as partituras, mas uma simpática saudação ao público, em português, na hora do bis, o instrumentista subiu ao palco para tocar um concerto para violino de Mendelssohn. Não aquele em mi menor que todos adoramos e sabemos de cor, mas o anterior, em ré menor, escrito quando o compositor tinha 13 anos de idade, e resgatado no século XX pelo mentor musical de Hope, Yehudi Menuhin.


O craque britânico do violino: Daniel Hope [foto: Harald Hoffmann/divulgação]

Devo confessar que, embora eu até tenha um CD com essa peça em casa, jamais prestei muita atenção nela. Hope nos brindou, contudo, com sua mais veemente e apaixonada defesa. Dotado de sonoridade generosa, apuro técnico e extremo refinamento no fraseado, protagonizou uma performance eletrizante, lançando desafios aos quais a orquestra respondia de modo pronto e atento.

Qualquer tipo de má vontade que eu tivesse contra o violinista ficou definitivamente eletrizada. Tanto que, depois do intervalo, recebi a Serenata para cordas de Elgar como uma ducha de água fria. Nada contra o romantismo tardio do compositor britânico, cuja singeleza pastoral foi entregue de forma delicada e matizada pela Arte del Mondo.

Mas é que eu queria mais Hope. E ele finalmente voltou ao palco, encerrando a apresentação com uma performance não menos refinada do Concerto para violino nº 1 de Mozart, na qual, sem deixar de lado os elementos galantes da obra, fez aflorar também a teatralidade de um dos maiores compositores de ópera de todos os tempos, em uma parceria com a orquestra que soava não como a relação hierárquica entre solista e acompanhador, mas como música de câmara.

No bis, Hope apresentou dois trechos (movimentos do Verão e do Inverno) de sua mais recente incursão fonográfica: a releitura pós-moderna que o compositor britânico de origem germânica Max Richter, 48, fez das célebres Quatro Estações, de Vivaldi. Não sei como eu teria lidado, em outro contexto, com o minimalismo neobarroco de Richter; ali, porém, funcionou como o fecho adequadamente radiante de um concerto memorável.

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