Diário de Salzburgo 2015 – Parte 4

Dia 4 (27/8): Filarmônica de Israel e Zubin Mehta
Nesse ano, vi em Salzburgo coisas inquietantes e curiosas que não me lembro de ter presenciado em edições anteriores do festival. Dentre as inquietantes está a presença de mendigos ajoelhados na frente dos teatros, em meio aos trajes de gala dos passantes, rogando por moedas. Já no rol das curiosas podemos listar um público que aplaude no meio da execução das peças. Aconteceu anteontem, depois do primeiro movimento da Décima sinfonia de Shostakovich, com a Sinfônica de Boston; e voltou a ocorrer na apresentação da Filarmônica de Israel, após o penúltimo movimento da Patética de Tchaikovsky.

Um otimista diria que se trataram de performances tão arrebatadoras a ponto de fazer o público se esquecer das convenções, enquanto um pessimista afirmaria que o nível de cultura musical dos frequentadores do festival decai a olhos vistos. Talvez uma hipótese intermediária aponte para o relaxamento das rígidas regras de quietude e imobilidade que transformaram os concertos de hoje nos equivalentes seculares dos serviços religiosos de tempos passados.

Dessa vez, o palco do Grosses Festspielhaus recebeu um matrimônio musical de duas entidades muito queridas e conhecidas do público brasileiro, e nascidas no mesmo ano de 1936: a Filarmônica de Israel e Zubin Mehta.

Em nome do maestro indiano de 79 anos, foi lido antes da apresentação um pedido de desculpas em inglês e alemão: por estar se recuperando de uma cirurgia no joelho, Mehta teria de reger a apresentação sentado em uma cadeira. Conservando o porte elegante de sempre, o regente deslocou-se até o pódio vagarosamente, apoiado em uma bengala. Esta foi entregue ao spalla e, em seguida, ele ajustou a chutes a posição do bloco em que deveria apoiar o pé (com um polido “sorry” para o público) e dirigiu o concerto inteiro com seu gestual amplo, claro e nobre. Tudo de cor, obviamente.


Mehta e a Filarmônica de Israel recebem os aplausos do público no Grosses Festspielhaus [foto: Marco Borelli/divulgação]

A primeira parte do programa foi dedicada ao compositor austríaco Arnold Schönberg, com duas peças anteriores à criação do dodecafonismo: Noite transfigurada, na versão para orquestra de cordas, e Sinfonia de câmara nº 1, na instrumentação original, para 15 músicos.

Sete anos e uma virada de século separam ambas as obras. Tocada pelas cordas completas, Noite transfigurada remete às texturas cheias e carregadas do mundo pós-wagneriano de Mahler e Richard Strauss, enquanto, em contraste, a Sinfonia de câmara parece apontar para a transparência e economia de meios que caracterizaria boa parte da poética da modernidade.

O contraste entre as peças colocou em relevo qualidades diferentes da filarmônica. Enquanto na primeira o público era acariciado com luxuriantes ondas sonoras (com destaque para a excelência técnica do violista Roman Spitzer, de São Petersburgo), na segunda foi possível apreciar a precisão rítmica e a reação rápida e solerte dos músicos aos gestos do regente.

Depois do intervalo, veio a Sinfonia nº 6 de Tchaikovsky – uma daquelas obras cujo impacto emocional é tão grande que costumam funcionar mesmo quando mal tocadas. A enorme afluência de russos a Israel após o fim da URSS refletiu-se diretamente nos quadros da orquestra, de modo que hoje a filarmônica é capaz de executar compositores russos de modo tão idiomático quanto qualquer grupo sinfônico eslavo. Tal afinidade refletiu-se não apenas na Patética, como ainda no bis – o refinado e evocativo prelúdio da ópera Khovánschina, de Mussorgsky. Nessa hora, Mehta se levantou para reger – o que talvez tenha deixado seus médicos apreensivos, mas encheu de gratidão todos que reverenciam o talento de um dos maiores magos da batuta da atualidade.

[O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Salzburgo a convite da Casa do Saber e da Latitudes Viagens de Conhecimento]


[Veja também]
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 1
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 2
Diário de Salzburgo 2015 – Parte 3
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