Heliópolis na Alemanha

Nem só do extrovertido Gustavo Dudamel e de sua colorida Orquestra Sinfônica Jovem Simón Bolívar da Venezuela vive a música clássica latino-americana. Outras iniciativas de inclusão social pela música acontecem em nosso continente, e o resto do mundo está descobrindo isso rapidamente.

Uma delas é a Sinfônica Heliópolis, fruto da iniciativa do maestro Silvio Baccarelli, que, a partir de 1996, iniciou um programa de ensino de música a populações de baixa renda em São Paulo. Hoje, o Instituto Baccarelli conta com um corpo docente de primeiríssima linha e instalações que causam pasmo e assombro a todos que o visitam.

Quem mora em São Paulo já teve diversas chances de ver a Sinfônica Heliópolis, que chegou a tocar até com o pianista Arnaldo Cohen, fez várias apresentações na Sala São Paulo, etc. A novidade é que, agora, os meninos, chefiados pelo maestro Roberto Tibiriçá, terão a chance de mostrar seu talento na Alemanha.

A orquestra, por intermédio do Mozarteum Brasileiro, vai participar do Beethovenfest, o festival dedicado a Beethoven que a Deutsche Welle (a BBC alemã) promove anualmente em Bonn - capital da Alemanha Ocidental antes da unificação germânica, e cidade natal do autor de Fidelio.

Neste ano, o evento vai de 10 de setembro a 9 de outubro, e inclui, como de hábito, nomes de peso: os pianistas Hélène Grimaud e Andras Schiff, o violinista Daniel Hope, a violoncelista Sol Gabetta e os regentes Paavo Järvi, Kent Nagano e Sir Neville Marriner, entre outros.

O concerto da Sinfônica Heliópolis está agendado para 4 de outubro. A ideia inicial de Tibiriçá era ter como solista Nelson Freire, no Momoprecoce, de Villa-Lobos. Como ele não estava disponível, a solução foi convocar outra estrela internacional do teclado: a lusa Maria João Pires, para tocar o quarto concerto do compositor homenageado pelo festival.

O programa vai ter ainda a oitava sinfonia de Beethoven, e uma encomenda feita a um jovem compositor brasileiro: André Mehmari, que, traduzindo para o português o nome da orquestra, escreveu uma obra denominada Cidade do Sol.

A especialidade de Mehmari, como se sabe, são glosas, paráfrases e paródias de temas de outros compositores, e aqui ele não fugiu da regra: apaixonado pelo lied, ele foi buscar duas obras do gênero de Franz Schubert chamadas Aus Heliopolis (D. 753 e D. 754), ambas com textos (diferentes) de Johann Mayrhofer, e a partir delas estruturou sua composição:

Os versos da primeira ("Im kalten, rauhen Norden") parecem especialmente oportunos para a ocasião: o poeta diz que, lá no frio e áspero norte, ouviu falar que havia, no sul, uma Cidade do Sol, onde há alegria ("Wonne") e vida ("Leben"). Sol, alegria e vida é o que o ensino musical está representando para as crianças de Heliópolis, um exemplo no qual a única coisa a lamentar é que ainda constitua uma exceção e não seja a regra aqui em nosso país.