Idomeneo: mais Mozart, por favor!

Quando vi a terceira e última récita de Idomeneo, no Teatro Municipal de São Paulo, na última terça-feira, dia 17, repeti-me uma pergunta que venho me fazendo há anos: por que não se fazem mais óperas de Mozart no Brasil?


O gênio de Salzburg escreveu nada menos que 22 obras no gênero: contudo, sempre nos limitamos a três – Don Giovanni, A Flauta mágica e As bodas de Fígaro. Se a qualidade de Mozart como compositor dispensa comentários, suas óperas oferecem muitas conveniências que as tornam bastante acessíveis às possibilidades dos teatros brasileiros: não exigem orquestras gigantescas, e os papéis protagonistas são vozes leves – justamente aquelas das que dispomos com maior abundância por aqui. Como esse Idomeneo comprovou mais uma vez, não é necessário recorrer à importação para montar um bom elenco mozartiano no Brasil.

Claro que, no caso específico de Idomeneo, é necessário fazer uma ressalva: não se trata de um título tão simples assim de se montar devido à demanda de um coro forte e ativo, como nas grandes óperas de Gluck (que o Municipal, por sinal, deveria montar logo). Por isso mesmo, é um título bastante atraente para uma casa que possui não apenas um, mas dois grandes corais profissionais, o Lírico e o Paulistano.

Ah, antes tarde do que nunca: aviso o leitor que fiz o texto de programa distribuído ao público nas três apresentações de Idomeneo em São Paulo. Se você achar que isso compromete minha isenção, pode parar a leitura por aqui.

Prosseguindo: depois de ser tantas vezes brindado com “gato por lebre” nos teatros paulistanos, fiquei surpreso ao ver uma operação contrária neste Idomeneo. Porque o que foi anunciado como “concerto cênico” revelou-se na verdade uma verdadeira montagem da ópera, com a orquestra no fosso, figurinos e uma utilização bastante engenhosa da luz e do maquinário cênico do teatro por parte da diretora Regina Galdino.

O que sobrou da intenção inicial de um “concerto cênico” foi a substituição dos recitativos pela narração da atriz Andréa Bassitt, da qual eu e minha sobrinha Helena somos fãs devido ao episódio A Flauta mágica, da série infantil O Aprendiz de Maestro.

Trabalhando para um público adulto, Bassitt fez uma adaptação sóbria do texto, declamando-o com elegância. Mas ainda fiquei na dúvida: se a narração faz o espetáculo fluir mais rápido e facilita a comunicação com a plateia, a supressão dos recitativos trunca a interação entre os personagens e seu desenvolvimento dramático.

Também tive dúvidas quanto à ideia de Galdino de identificar Netuno com o Mercado, e fazer dos dramas de Idomeneo um reflexo da crise financeira atual – coincidentemente ambientada na Grécia. Meu problema não é com a ideia em si, nem com a plástica da montagem – o final do segundo ato, com um grande gráfico da queda das bolsas e uma coreografia hierática dos bailarinos a emular os operadores do mercado financeiro parecia uma bela evocação do universo do filme Metrópolis, de Fritz Lang.

O problema é que, pelo menos para meu gosto, Galdino não conseguiu fazer com que esse conceito perpassasse de maneira efetiva todos os elementos da encenação, regendo os conflitos dos personagens e governando suas motivações. A impressão total, assim, não era de uma montagem orgânica, com todos os aspectos coordenados, mas simplesmente de um Idomeneo “modernizado”, do qual a alusão à crise global era apenas um item dispensável.


Para continuarmos na Grécia Antiga, não seria exagero dizer que, musicalmente, o calcanhar de Aquiles da ópera, infelizmente, voltou a ser o desempenho da Orquestra Sinfônica Municipal, desencontrada desde a abertura. A transparente escrita mozartiana desnudou todas as limitações de um grupo ainda longe da excelência, em que pese o bom trabalho de Rodolfo Fischer em um acompanhamento atencioso dos cantores.

Nesses residiu o maior mérito e interesse da noite. Não custa lembrar que se trata de um elenco que havia sido montado e escalado para cantar Così fan tutte e que, inesperadamente, às vésperas do início dos ensaios, foi comunicado de que o título havia mudado.

Nada no desempenho dos solistas traiu a pressa e o stress de ter que aprender e decorar um papel novo em cima da hora. Seria injusto destacar alguém entre os desempenhos igualmente coesos de Miguel Geraldi (Idomeneo), Gabriella Pace (Ilia), Luisa Francesconi (Idamante) e Janette Dornellas (que desembarcou à última hora para substituir a adoentada Claudia Riccitelli como Electra). Apenas o tenor Marcos Liesenberg esteve aquém das demandas ultra-virtuosísticas da ária de seu personagem, Arbace.

Vozes mozartianas temos em abundância: que tal, então, para os próximos anos, um Rapto do Serralho ou uma Clemenza di Titto?