A música e o risco, ou o encontro do flautista de Hamelin com os Capitães da Areia

por Leonardo Martinelli 29/05/2013

Diz a lenda que certo dia, em finais do século 13, na cidade alemã de Hamelin, apareceu um sujeito que prometia botar fim à infestação de ratos que há tempos causava inúmeras doenças e transtornos a seus moradores. Desesperados, todos na cidade se comprometeram a pagar uma moeda em troca de cada rato morto. Acordo feito, o homem começou a tocar sua flauta. Encantados com sua doce melodia, os ratos passaram a seguir o homem, que, astutamente, se dirigiu para as margens Rio Weser. Como que enfeitiçados pela música, os ratos não se deixaram abater e entraram na água, e lá acabaram por encontrar a morte. Quando voltou à cidade para receber sua parte do acordo, os cidadãos cruelmente se recusaram a pagá-lo: afinal, agora livre dos ratos, o que o forasteiro poderia fazer contra eles?

Amargurado, o homem planejou sua vingança, e dias depois voltou à cidade, e enquanto todos estavam na igreja, voltou a tocar sua flauta, desta vez entoando uma melodia que só atraia as crianças, que, também enfeitiçadas, passaram a seguir o flautista, que por fim as confinou dentro de uma caverna.


Ilustração de O Flautista de Hamelin [foto: divulgação]

Séculos depois, a um oceano de distância e na prática em um 'planeta' completamente diferente daquele descrito no conto dos Irmãos Grimm, o baiano Jorge Amado narra as desventuras de um grupo de crianças e adolescentes, órfãos ou abandonados, que aterrorizava a sociedade soteropolitana com roubos, furtos, estupros e outros tipos de agressões físicas e verbais. Conhecidos como os “capitães da areia”, num certo momento Amado narra o encontro destes delinquentes com um carrossel e, principalmente, o impacto que o som de uma pianola que tocava “uma valsa velha e triste, já esquecida por todos os homens da cidade” teve na alma destes infelizes:

"Neste momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música."

Passados mais de 70 anos da Salvador onde os capitães da areia tocavam terror, temos novamente o encontro da música com crianças e adolescentes “pobres”. Mas, ao menos no sentido econômico, menos pobres que os filhos dos camponeses medievais ou as crianças entocadas no galpão abandonado da região portuária de Salvador. Ao invés de um flautista ou do som de uma velha pianola temos a interpretação de um músico brilhante – mas desta vez as crianças não agiram como crianças. Nem como ratos.


André Mehmari  [foto: divulgação]

Há alguns dias o pianista e compositor André Mehmari narrou em tom de desabafo em seu perfil no Facebook a pavorosa experiência que havia passado em uma apresentação do projeto “Ouvir para crescer” realizada junto a jovens entre 10 e 12 anos no bairro Vila Industrial, em Campinas, no interior paulista. “Entrei no palco feliz da vida para falar de Nazareth e anunciar as canções que se seguiriam. Ao som de berros e injustificáveis vaias irracionais, ouvi toda sorte de grosseria: sai daí filho da puta! Vai tomar no __! Vai se __!” conta Mehmari. Para qualquer um é difícil ler todo o relato (e em especial o trecho acima) sem ficar com um nó na garganta. Para um músico, é ainda pior.

Mas se engana quem acredita que o incidente ocorreu por conta de um simples choque entre culturas, valores, classes ou gerações. Mais ou menos na mesma época, Emmanuele Baldini, violinista e spalla da Osesp, ele mesmo também um dos grandes músicos que abrilhantam a cena musical brasileira, relatava em seu perfil na rede social o comportamento no mínimo desrespeitoso durante uma apresentação da Osesp na Sala São Paulo. No desabafo, o sangue italiano do músico se faz ouvir: “Hoje tive momentos de instinto homicida, e minha tolerância foi ameaçada por uns xxxxxxx que na primeira fileira estavam rindo, falando, se mexendo, sugando o nariz sem nenhum respeito nem pelos músicos, nem pelo público e nem (o que mais importa) pela música de Schubert que estava sendo tocada”.

O assunto não se restringiu à comunidade musical. O absurdo da situação vivida por Mehmari ganhou ainda mais repercussão a partir da publicação de um artigo do músico José Miguel Wisnik no jornal O Globo, no qual ele tece suas considerações sobre o episódio. Paralelamente, ainda nos universo da multiconexões das redes sociais, diversos outros relatos e narrativas semelhantes passaram a aparecer. E na esteira, veio também muita pseudosociologia, que, ao tentar explicar o fato, inacreditavelmente coloca o músico como vilão.


Emmanuele Baldini [foto: divulgação]

De minha parte, além da profunda tristeza e da solidariedade para com esses grandes artistas, me veio à mente o cerne da questão que une estes incidentes, isto é, a insensibilidade do ser humano em relação à música.

Afinal, se até os ratos de Hamelin foram enfeitiçados com o som da flauta e os temidos capitães da areia se encantaram com “uma valsa velha e triste”, o que então explica as atitudes acima relatadas?  Mais apavorante do que nos defrontarmos com a falta de “educação de berço” que se generaliza desde os jovens da periferia até os frequentadores de uma elegante sala de concertos é a constatação de que a música tem sim seus limites. Esta arte, transcendental por natureza, que a tantos encanta, aos tontos pode sim passar despercebida. Porém, isto não quer dizer que ela não possa “dobrar” estes ouvidos insensíveis.

Foi então que me lembrei do fundamental trabalho realizado por Rose Satiko Gitirana Hikiji, que acompanhou de perto a estoica empreitada que é a educação musical numa unidade da Febem, descrito no livro "A música e o risco: etnografia da performance de crianças e jovens". Difícil imaginar ambiente mais hostil do que os reformatórios contemporâneos, que mascarados por nomes politicamente corretos, ainda servem de cenários para verdadeiros infernos terrenos.

A estudiosa toma o certeiro caminho da antropologia para explicar como é possível fazer com que estas “feras” entrem em contato genuíno com aquilo que a música pode oferecer de melhor. Isto é, ela não pode ser usada como um dardo de tranquilizante (talvez seja esta a falácia mais comum de alguns dos famigerados “projetos sociais” que lançam mão da música), mas sim como mais um dentre outros elementos agregadores no processo de transformação pessoal do jovem infrator ou criminoso.

Para quem se chocou, se indignou ou se entristeceu com os incidentes citados, com a falta de sensibilidade e com a eventual impotência da música, trata-se de uma leitura revigorante.

O título do livro, “A música e o risco”, apesar de não ter sido pensado especificamente para o contexto aqui tratado não deixa de trazer uma mensagem sobre a questão.

Não importa o quão preparado, o quão genial, o quão ideal são as condições de pressão e temperatura: quando se trata de arte, sempre haverá algum tipo de risco, inclusive o risco do absurdo (palavra que talvez melhor defina estas situações).

A propósito – e para encerrar a seção de citações e evocações (autocrítica: coisa de gente sem imaginação) bem como este texto – trago uma célebre sentença do poeta Lêdo Ivo: “O absurdo é o sal da vida”. Que este sal, ainda que indigesto e em dose exagerada, apenas abra ainda mais o apetite de Mehmari, Baldini e de todos os outros músicos que viveram ou viverão situação semelhante para degustar ainda mais os abundantes prazeres que a vida na música pode reservar. E tenho certeza que eles não deixarão por menos.


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