Nathalie Stutzmann: contralto em dose dupla

Uma das vantagens da existência de uma instituição como a Osesp é a cidade ser semanalmente visitada por grandes nomes internacionais que, antes de a orquestra ser recauchutada por John Neschling, só vinham até São Paulo uma ou duas vezes por mês, nas séries de assinatura da Sociedade de Cultura Artística e do Mozarteum Brasileiro.

Caso da francesa Nathalie Stutzmann, 47, que, nos últimos dez anos, vem exibindo por aqui seu raro timbre de contralto natural – com um registro grave especialmente escuro e denso, que beira a androginia – quer em canções, quer no repertório orquestral.

Pois bem: recentemente, Stutzmann, além de cantar com a Osesp, foi a estrela de um dos recitais que a orquestra promove da Sala São Paulo.


Nathalie Stutzmann [foto: divulgação]

Fui ouvi-la inicialmente na sexta-feira, dia 12, com a Osesp, sob a batuta de Sir Richard Armstrong.  Seu repertório era dos mais interessantes: o bicentenário de Wagner celebrado com os Wesendonck-Lieder, na orquestração refinada e inteligente de Hans Werner Henze (1926-2012) – embora perca um pouco do impacto ao ser colocada depois de uma versão chocha da Sinfonia “Júpiter”, de Mozart, à qual a “cintura dura” da Osesp roubou o caráter de dança do minueto e de canto das melodias.

Mais do que se destacar pelo volume ou potência da voz, Stutzmann é uma cantora de delicadezas camerísticas. Portanto, o rincão da Sala São Paulo no qual a crítica é sistematicamente exilada nos concertos da Osesp  nem sempre é o melhor local para ouvi-la. E parece ter faltando, ainda, quantidade suficiente de ensaios para que houvesse real música de câmara entre solista e orquestra. Stutzmann cantava bem, de um lado; a orquestra tocava bem, do outro; quem quisesse ouvir diálogo musical, que voltasse na terça-feira, quando ela daria recital com a pianista sueca Inger Södergren.

Foi o que fiz. Na série Osesp de recitais, a Sala São Paulo é “encolhida”, transformando-se de hall sinfônico em intimista ambiente de câmara. Dessa vez, estranhamente, a solista foi colocada de costas para a plateia, cantando de frente para o coro. Como resultado, os que estávamos no local supostamente “nobre” da sala encarávamos sua nuca, e ouvíamos o piano antes da voz – que nos chegava de canto de boca. Inventou-se uma compensação em telas de plasma, ao lado do palco, para quem quisesse contemplar as expressões faciais da cantora – mas, para a perda do foco vocal, não havia remédio.

Enfim, uma Stutzmann de esgar é ainda melhor do que Stutzmann alguma. O programa abriu com uma seleção de sete lieder de Schubert e, dentre a escolhas célebres, como Du bist die Ruh, Heidenröslein e Die Forelle, o destaque foi Litanei au das Fest aller Seelen, com seus graves luzindo de forma especialmente expressiva.

A homenagem a Wagner veio em seguida, com quatro raríssimas canções não em alemão, mas em francês. Particularmente irônico é ouvir Os Dois Granadeiros, de Heine, que Schumann transformou, em alemão, em um de seus mais célebres lieder, vertido para a língua da nação contra a qual Wagner soltou tamanhas diatribes; a exemplo de Schumann, ele usa o irresistível recurso de citar a Marselhesa, e me pergunto se o compositor não teria experimentado nem um pedacinho de conflito ao musicar versos como “j'irai défendre enconre/la France et l'Empereur, l'Empereur bien aimé” (vou defender novamente/a França e o Imperador, o Imperador amado).

Depois do intervalo, Stutzmann incluiu belas canções de outro compositor de ópera, Gounod, fechando com o ponto alto da noite: uma encantador bloco dedicado a Debussy, interpretado com uma sedutora e amadurecida mescla de compreensão de texto, apuro no fraseado e domínio da arte do colorido vocal.

Lá pelo segundo bis, ela se compadeceu dos exilados da plateia e, por uma estrofe, dignou-se a cantar de frente para nós, brindando-nos com a plenitude de sua vocalidade. Em 14 anos frequentando a Sala São Paulo, nunca fiquei com tanta inveja dos privilegiados que estavam sentados no coro, e que tiveram 100% de Stutzmann, a noite inteira...


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